Só Contos

Apenas Mais um Arquivo de Palavras

A Ruiva Acesa

Art by Valentina

Por Ivani Medina

Ela era ruiva, branquinha e de olhos muito azuis e tinha um corpo bonito. Era separada do marido, por sinal bem mais velho do que ela, egressa de um casamento decepcionante arranjado pelo próprio pai com um amigo dele. Tinha um filho, Alvinho, que na ocasião contava com nove anos de idade e ela com seus luzentes vinte e cinco.

A chegada da linda jovem naquela rua deixou os rapazes curiosos e interessados. A nova residente não era antipática, mas não dava abertura às investidas juvenis ou de outros mais experimentados. Mulher jovem, linda e separada era como doce chamando abelha na padaria. Os rapazes habitualmente reuniam-se à noite sob um lampião a entrada da vila, para contar lorotas, em especial suas improváveis conquistas amorosas e, a partir daí, também para vê-la passar.

Entre eles estava Gabriel, com seus dezenove anos de idade e a irresponsabilidades que lhe era característica. Atrasado nos estudos por pura preguiça, às vezes cabulava aulas do curso noturno para ficar de conversa fiada e a ouvir os mais velhos e aprender coisa alguma. Zombavam dele porque nunca contava nada para se vangloriar e tinha fama de virgem. Nem podia, porque andava a se divertir insuspeitamente com as irmãs dos loroteiros. Com elas e a situação ele aprendeu o valor de uma boca fechada.

O curso noturno era a última esperança dos seus pais. Quando souberam da insistência nas suas malandragens deram-lhe doídos puxões de orelha. Não poderia mais descer à noite para conversar com amigos, nem nos finais de semana, e todas as prerrogativas de rapazinho estavam cortadas. Só lhe restava estudar. A saída para o curso noturno era a única possibilidade de contato com o mundo.

Certa noite, lá pelas 22 horas, retornando das aulas, percebeu a bela ruiva na rua deserta com um cãozinho da mesma raça daquele que a sua família tinha em casa. Ele morava num prédio de três andares vizinho à vila de casas para a qual ela havia se mudado, onde ficava o conhecido lampião.

─ Mãe, vou levar o Gepeto um pouquinho lá em baixo.

─ Ué, o que que te deu? Mas é bom pra ele, leva sim.

Foi uma aproximação perfeita, o dele era macho e o dela era fêmea. O bom entendimento entre os animais foi um bom presságio. Logo a ruiva estava desarmada naqueles encontros caninos com o divertido menino vizinho. Ela ria de se esbaldar como a recuperar a juventude enterrada naquele casamento arranjado. Pediu ao Gabriel que fosse discreto em relação àquela amizade. A maldade das pessoas era grande e o ex-marido só queria um pretexto para tomar-lhe a guarda do filho.

Quando os colegas de rua o viram cumprimentando a ruiva e ela respondendo com um sorriso não contiveram a curiosidade.

─ Essa não, vai ter que contar pra gente. Como é que foi isso? Porra, logo contigo!

─ Ué, é que temos cães da mesma raça. Foi uma coincidência…

─Ah bom, só podia ser.

Olhares mais curiosos examinaram Gabriel que nem estava aí para curiosidade inconveniente deles. De vez em quando jogavam uma indireta, mas no fundo não eles acreditavam que Gabriel era capaz de sedução alguma.

A amizade com a ruiva havia progredido muito e o instinto havia tempo que dera o ar da sua graça nas conversas daqueles dois. Gabriel procurou um amigo de outro bairro para ver se conseguia um apartamento emprestado. Por sorte, o castigo havia funcionado e o rendimento no curso noturno tranquilizado seus pais. O restabelecimento das prerrogativas de rapazinho trouxe a mesada de volta, que ele passou a economizar sonhando com a possibilidade do grande dia.

Combinaram o encontro numa rua bem longe. Com o coração acelerado vasculhava como um radar a aproximação dela. Finalmente! Ela estava nervosa também, não pelos mesmos motivos, claro. Pensa no Alvinho e na burrada que poderia estar fazendo. O esquema era pegar a chave com o porteiro e pronto. Ela pediu para ficar no táxi enquanto ele cuidava disso. Não deu certo, o porteiro disse que as chaves estavam com o irmão do locatário que havia chegado de viagem havia poucas horas.

Quando ele deu a notícia foi uma decepção só. Penalizado com a situação do rapaz inexperiente, o motorista do táxi se desculpou pela intromissão indicando um hotel no bairro do Flamengo que era discreto e seguro e com muito gosto os levaria lá. Só faltou dar uns conselhos para o Gabriel de tanta piedade. Chegando lá, de sacanagem, o atendente pediu documentos. Ela negou-se por causa do medo absurdo de perder a guarda do filho simplesmente por satisfazer às suas necessidades sexuais. Foi difícil convencê-la, mas Gabriel conseguiu.

O quarto era limpinho e decente, mas com duas camas de solteiro. Gabriel juntou as camas que ficaram coladas num armário que existia entre elas. Ela pediu que ele apagasse a luz. Que pena, mas um pedido dela era um desejo dele também. O quarto não ficou absolutamente escuro e a visão ia se acostumando aos poucos. De tão branca que era, despida naquela penumbra a ruiva parecia acesa. Como protetores daqueles interruptores de parede fosforescentes. Houve muito carinho e ela estava adorando.

Todavia, o clima se transformaria hilariamente quando ela pediu que ele subisse e a fizesse mulher. Na empolgação do vai e vem do amor as camas batiam no armário num tunc tunc de acordar bêbado. A movimentação fez com que elas se afastassem lentamente uma da outra e o joelho esquerdo dele fosse afundando lentamente até despenar de vez. Riram até a barriga doer.

Ás vezes ele a visitava no escritório onde ela trabalhava. A ruiva determinava o dia e o horário das visitas. Era só para conversarem um pouco. Com um presentinho ou outro ela mimava o seu querido menino grande. Numa dessas, pediu a ele que evitasse ficar conversando com ela no portão da vila, com já vinham fazendo há algum tempo. O motivo era que um sujeito das vizinhanças, dos seus trinta anos, com boa situação financeira, até dirigia um carro esporte, havia indagado a respeito dela com uma senhora conhecida.

─ Olha, gosto muito de você, mas tenho que pensar no meu futuro. As pessoas inventam histórias e eu preciso me preservar. Você entende né?

Gabriel não se incomodou nem um pouquinho. Estava disposto a colaborar, não lhe custava nada.

O tal pretendente tinha conhecimento com um sujeito chamado “Paulo da farmácia”, um cara maduro, safado e um fofoqueiro filho da mãe.  Paulo sabia que o único menino daquela rua como qual ela falava era o Gabriel. Chegou-se maliciosamente para ver se arrancava alguma coisa dele, mas não conseguiu nada. Conhecia a fama de bobo do alvo da sua investigação, mas não confiava nela. De alguma forma sabia que Gabriel se fazia de sonso. Comprovou sua safadeza ao jogar verde para colher maduro. Espalhou o boato que Gabriel havia contado a ele que tinha se deitado com a ruiva.

Ela nunca mais olhou para cara do Gabriel.

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7 thoughts on “A Ruiva Acesa

  1. Pingback: Ver! | Blog | A Ruiva Acesa

  2. joselitobortolotto on said:

    Bem, como sempre um boato …..as vezes tem a força de um furacão.

  3. Obrigado pelo comentário Joselito. A inveja é mesmo uma …

  4. Sissym on said:

    Não se pode confiar… sempre existem orelhas graúdas e línguas de enrolar!

    beijos

  5. rsrsrs É isso mesmo, Sissym. Obrigado pelo seu comentário.

  6. Torci do princípio até ao meio da narrativa pelo sucesso do casal, mas percebendo que a arte imita a vida, esperava algum desencontro, mas o final foi simplesmente “Magistral”

  7. Muito obrigado Antonio Carlos. Na vida real os finais são finais mesmo rsrsrsrs
    Grande abraço.

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