Só Contos

Apenas Mais um Arquivo de Palavras

A Serventia do Tapete

Por Luísa L.

– É um infeliz, é o que tu és! Nem para tapete serves! – Disse aquela mulher de rosto suíno e porte de bulldozer. Na boca fina escorriam-lhe uns fios de fel, fluido verde, que aparece de vez em quando nos donos da verdade e do pequenino mundo que rodeia o seu umbigo.
O rapaz franzino, que caminhava ao seu lado, encolhia-se dentro do blusão impermeável tentando fintar as palavras daquela bola-de-berlim, de modo a não ser atingido por algum bocado de creme bilioso. Se alguma daquelas palavras letais o atingisse, era certo e sabido que ele seria esmagado, imobilizado, aniquilado, quiçá morto, por tamanho desprezo e ódio.

Quando cheguei a casa, olhei com pena para o tapete da minha porta. Realmente… ser capacho é estar abaixo de tudo. É estar ao serviço dos sapatos. As botas cardadas pisam-no selvaticamente. Os ténis cheios de lama refastelam-se nele, até ficarem limpinhos. Os sapatos de saltos altos, finos como espadas,  deixam-lhe profundas feridas.

Os tapetes têm que aguentar o arrastar de pés dos gordos, os passos leves dos magros e os saltinhos dos nervosos. Ficam doridos com o peso das mesas, cadeiras e sofás; quase sufocam com as pilhas de brinquedos que suportam e enjoam com os pulos das crianças. Suportam migalhas, cabelos, pingos de chá e até almocinhos e jantarinhos de água e farinha, para bonecos esfomeados.  Os tapetes são a salvação do soalho polido, mas pensam que alguém lhes liga? Ninguém lhe dá importância, a não ser que sejam persas ou de Arraiolos, mas essa elite não é para aqui chamada…

Então, perturbada com estes pensamentos, tomei uma decisão. Peguei no tapete com carinho e meti-o na banheira. Dei-lhe um banho de espuma e escovei-o delicadamente, para não magoar mais o seu pelo de sisal. Passei um pouco de amaciador e escovei mais uma vez. Agora estava limpo e cheiroso. Acariciei o meu tapete e agradeci-lhe os anos e anos a aguentar o meu raspar de pés.
Já está velhinho o meu capacho. Coitado. Tantos anos a dormir à porta de casa com o cão da vizinha em cima! É caso para dizer: ser tapete está abaixo de cão!
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15 thoughts on “A Serventia do Tapete

  1. Pingback: Ver! | Blog | A Serventia do Tapete

  2. Maravilha, Luísa. Que inveja do tapete kkkkkkk

  3. Estou me sentindo péssimo! Nunca mais olharei para um tapete da mesma forma.

    Só imploro que não me faças um texto desses defendendo políticos (provavelmente os únicos seres mais rastejantes que tapetes), pois não gostaria de sentir pena deles.

    Beijos, Luísa. 8)

  4. Conto do tapete, uma ode literária !

  5. O conto está divertido, mas me fez ficar refletindo como também existem pessoas que são tratadas como tapetes, ou pior. Aí fiquei triste. Por elas, pelo que suportam e pelos que as maltratam, pois seres assim são dignos de pena: os insensíveis e prepotentes.
    Beijos

    • É verdade Atena, a tua visão é a correcta, mas eu confesso que não consigo ter pena de pessoas insensíveis e que gostam de espezinhar os que, por qualquer motivo, não podem ou não sabem defender-se. Acredita que nessas alturas gostaria de ser uma daquelas personagens de filme da tarde, que fazem justiça logo ali…

      Beijos.

  6. tutankamon3000@live.com on said:

    Rogai por mim Divina Luisa…
    Vossa crônica despertou o meu pensamento e um terrível dilema surgiu:
    Óbvio!!! Não nasci para ser cavalo de ninguém
    A dúvida é com essa coisa de limpeza do tapete…o meu banho é semicúpio ,um a cada três fases da lua,estou predestinado a ser capacho sugismundo!!!????
    Misericórdia…
    abraços fortes

    • Misericórdia, digo eu….

      Ouvi dizer que faraós tomavam banho de óleos… eram alérgicos à água, acho eu… mas nesta história tu nunca poderias ser personagem… ninguém se atreveria a ser prepotente com um deus!🙂

      Grande abraço e obrigada pela tua presença!

  7. joselitobortolotto on said:

    Bem, vendo por este lado, o de cima, apesar de sua utilidade e de sua necessidade, algumas pessoas são sim utilizadas para este fim …. infelizmente.

  8. Van on said:

    E cumprem sua sina com tanta galhardia, limpando os pés, tornando-os mais dignos.

    Lindo texto, Luisa!

    Beijos

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