Só Contos

Apenas Mais um Arquivo de Palavras

O Alemão

Art by Berenika

Por Ivani Medina

Dona Bittencourt era uma mulher tranquila e conversadora. Adorava contar seus casos e mais se divertia do que os ouvintes. É sempre bom compartilhar os bons momentos, especialmente quando nada mais se tem a fazer. A idade geralmente limita tudo, até o pensamento.

A dificuldade no trato e a necessidade de cuidados especiais que a doença exige fizeram com que os filhos a internassem numa instituição especializada para tocarem as próprias vidas, pois de outro modo seria impossível. A doença de Alzheimer causa mais estragos aos que estão à volta do que ao próprio enfermo, pois ele ou ela se esquece de tudo. Os filhos da dona Bittencourt se referiam a doença simplesmente como “o alemão”.

A variedade de perfis e de momentos de cada doente deixa qualquer um doido. Não podem ficar a sós em ocasião alguma e seus acompanhantes devem ser especializados, muito bem treinados e custam caro. Além do esforço para manterem a regularidade nas visitas, do esforço financeiro e da dor de ver a mãe naquelas condições, seus filhos ainda passaram pelo dissabor de saber de críticas maldosas da parte de alguns ignorantes da família, como se tivessem abandonado a inservível mãe num asilo. Tem gente que se aproveita dessas horas para lançar seu veneno, como se assim fosse livrar-se das antigas mágoas.

Dona Bittencourt nasceu numa família de classe média baixa do interior do estado do Rio de Janeiro. Tudo fez para sair de lá, até que conseguiu. Foi morar, sob os protestos do pai, com uma tia materna na capital, cuja índole independente incomodava a muitos. Seu sonho era estudar nos melhores colégios ou, pelo menos, em colégios melhores do que os de lá. Algumas pessoas da família a achavam metida por causa do seu anseio cosmopolitano. Eram provincianos, se orgulhavam daquilo e não admitiam uma desfeita dessas com a boa terrinha. Na verdade, inveja daqueles que se viram frustrados no sonho de morar na capital.

Só mesmo a miudeza de sentimentos podia ver desfeita na vontade de saber e de conhecer um pouco mais daquela mocinha. O fato de ela ter atingido seus propósitos, enquanto aqueles permaneceram em suas vidinhas, e o sucesso que ela fazia sempre que retornava para rever os seus e a cidade causavam despeito. Casou-se e teve filhos cariocas que sob os seus cuidados aproveitaram as oportunidades triviais de estudo e colocação no mercado de trabalho. Nada excepcional, mas o suficiente para que unidos conseguissem dar um bom atendimento a mãe diante daquela infelicidade e sem sacrifícios às próprias famílias.

Certa vez, uma parenta da dona Bittencourt estava de mudança e ela, ainda adolescente, foi lá para ver se podia ajudar a embrulhar as louças ou coisas assim. Ao chegar deparou com a mulher no quintal segurando uma chaleira fervendo.

─Cuidado que isto aqui está muito quente.

─Sim, estou vendo. Mas para que isto?

Em seguida ela não acreditou no que via. A mulher despejando água fervendo num viçoso pezinho de manga.

─Mas por que a senhora está matando a plantinha?

─Ora essa, você não vai querer que deixe para outros as frutas da arvore que eu plantei?!

Não eram todos assim, toda família tem lá os seus tipos e ela pertencia à banda saudável dos Bittencourt. Dona Bittencourt tinha suas histórias prediletas que nunca lembravam tristezas. Às vezes passava semanas repetindo a mesma como se agarrada a um pedaço do tempo. Acabava de contar um caso, sorria e punha as mãos sobre os joelhos e olhava para cima, como quem buscasse mais algum detalhe interessante, respirava de saudade e dizia:

─Ah, tenho uma ótima pra te contar!

Repetia a história toda de novo, exigindo que o interlocutor se divertisse com ela nas partes que considerava mais engraçadas. Sua filha mais velha se esforçava para conter o choro.

A instituição não abrigava especialmente doentes do mal de Alzheimer. A maioria lá estava pelos cuidados exigidos pela idade como o seu Nicolau, um ex-combatente que dava muito trabalho porque era um bolinador de primeira. Umas reclamavam e outras adoravam. Familiares haviam pedido a remoção dele para outro lugar: ─Com a minha mãe não! Mas no fundo ninguém tinha coragem de fazer nada contra ele. Seu Nicolau era muito simpático e bom de conversa, enrolava qualquer um. Certamente deixaria muitas saudades se o tirassem de lá. Num acordo de cavalheiros, limitou-se àquelas que o acolhiam satisfeitas.

O ex-combatente adorava também contar suas mentiras do tempo da guerra. Fazia da sua narração um filme hollywoodiano que não raro as acompanhantes que o ouviam faziam uma farra danada e batiam palmas ao final. Ele mesmo se gabava: Nicolau, preferência nacional! E caia na gargalhada junto com elas. Era também um homem de bons sentimentos e ao perceber os olhos marejados da filha da dona Bittencourt, foi-se indagar com ela:

─É a sua mãe, não é?

Ela sorriu com simpatia receptiva às boas intenções dele. Sabia o quanto era bom fazer com que os internos se sentissem úteis, especialmente naquelas ocasiões.

─Mas o que houve com ela?

Sem pensar, movida pela força do costume junto aos irmãos, respondeu:

─Foi o alemão.

─Hitler? Aquele filho da puta?!

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2 thoughts on “O Alemão

  1. tutankamon3000@live.com on said:

    Crônicas da vida real
    Retornei a minha meninice ao lado de Dona Maria em que muito se assemelha Dona Bittencourt, tomada por esta estranha doença de alzheimer
    Feliz,sob os cuidados da família e muito amada ,a anciã de 73 anos possui a mesma alegria,mas aprisionada numa mente de uma criancinha de 6 anos de idade,ainda lhe permanece o largo sorriso,.Custa-me muito visitá-la e lembrar daquela pessoa que sempre me recebia com alegria,hospedando-me e cuidando como um de seus sete filhos
    como o ex.combatente,nos lapsos da mente me perderei e este alemão fdp,bom orador era, agora fela o próprio satanás-maldito Hitler!
    Ivani,
    abraços fortes

  2. Tutankamon, obrigado pelo teu comentário. Minha mãe faleceu aos 83 anos. Seus últimos 5 ou 6 anos ela passou numa instituição para idosos. Ela teve um avc e tornou-se cadeirante, o que demandava muitos cuidados. Duas vezes na semana eu a visitava e gostava muito de ir lá. O lugar era agradável e as pessoas também. Fiz muitas amizades e chegou a um ponto que havia necessidade sair de fininho para poder dar atenção a minha mãe. Participei de muitas situações com aqueles que aguardavam a hora. A realidade é essa. Foi muito instrutivo, divertido e delicado.
    Muito obrigado e um forte abraço.

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