Só Contos

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O Velório

Por Ivani Medina

Numa das capelas do cemitério do Catumbi o ambiente era padrão: caixão coberto de flores sobre suportes no centro da sala, ladeado pelos visitantes, uns poucos da família e a maioria amigos quase silenciosos. Dona Albertina, a defunta, nunca foi de choramingar em vida e isto parecia estar sendo respeitado naquele momento difícil. Por mais intelectualizado que se seja para perder alguém ninguém está preparado.

Ela deixara uma única filha que já havia perdido o pai e o avô materno anos atrás. Eram imigrantes portugueses e constituíam um bom patrimônio e uma família pequena no Brasil. Ana, a filha da morta, a partir daquele momento tinha como familiares, um tio, irmão do falecido pai, um primo e o marido. Mas, é como se diz: marido não é parente.

Simpática, inteligente e uma pessoa muito agradável, Ana, havia se cercado ao longo dos anos de amizades valorosas, porque assim ela era também. Estava perdendo a eterna luta contra a balança, mas o rosto continuava bonito, cativante e iluminado pelo bom humor de sempre, mesmo naquela hora. A inteligência dela tinha raízes profundas.

Na verdade, nunca estivera só. Cedo a vida lhe dera uma família apêndice. Eram quatro irmãos, dois casais, vizinhos desde pequenos. As meninas estudaram com Ana na mesma escola do ensino fundamental. Iam todo dia de carona com o seu querido avô materno no antigo Ford preto. O tempo se encarregou do resto. Amizade com mais de cinquenta anos sem interrupção pode ser considerada família.

Em sua família natural tudo era mais simples e mais farto para três pessoas. Na família, apêndice com o dobro de gente, não havia carência, mas era tudo bem mais movimentado, digamos assim. O pai das suas amigas era militar e viajava muito, mas quando estava em casa dirigia a família com mão de ferro. Viajava alívio, retornava terror. A casa da dona Albertina era uma espécie de embaixada para as meninas asiladas fugidas d’um governo militar. Ela dava asilo com satisfação e se divertia com tudo aquilo. Ana adorava. Que filha única não quer as amigas dormindo em sua casa?

A mais velha era mais infantil e muito medrosa. A mais nova era atrevidamente esperta, decidida e naturalmente engraçada. Era o oposto de Ana, com seus modos calmos, fala pausada e mansa e só fazia rir de Annette. O interessante é que entre elas havia até uma ligação no nome. Dona Albertina era fã declarada de Annette. Porém uma vez ficou sentida com essa filha emprestada. A parida e a emprestada brincavam com umas revistas que traziam umas bonecas para recortar e vestir com um guarda-roupa variado naquela alegria de papel.

O Natal estava próximo e Ana caiu na besteira de perguntar à Annette o que ela havia pedido a Papai Noel.

─ Que Papai Noel o quê. Você ainda acredita nisso?

─Por quê?

─Porque é mentira, ué?

A redomada Ana não podia aceitar aquela monstruosidade que a sua melhor amiga lhe dizia.

─Mentira é o que você está me dizendo. Existe sim!

─Ô garota burra!

Ana pôs-se a chorar. A amizade ficou seriamente abalada até a chegada da próxima revista de recortar, que chegou à semana seguinte. Dona Albertina acabou rindo também de si mesma. Aquele episódio serviu para chamar-lhe atenção para as inevitáveis tentações protecionistas que acabam trazendo mais tristezas do que contentamentos. Mas o Papai Noel da Ana não se esqueceu da apimentada Annette e nem da sua irmã mosca morta.

Annette entrou na capela acompanhada do irmão que guardava a mesma afeição fraternal por Ana. Quando os viu, os olhos dela se inundaram com aquele amor antigo. Os últimos meses de dona Albertina foram de um sofrimento intenso, narrado rapidamente por Ana, mas sem pressa. Nesse momento entram Glorinha e o marido. A mãe de Glorinha era amiga antiga de dona Albertina, cuja amizade se estendeu aos filhos. Glorinha jogava no time de Annette, isto é, tinha mais ou menos o mesmo perfil galhofeiro.

Vencida as etapas da dor, involuntariamente, foram se abstraindo da situação e do ambiente para aliviar as tensões. Os cinco haviam formado uma rodinha de costas para o caixão, na qual o primo de Ana se incluiu. Os assuntos tomaram rumos espirituosos como de hábito, os sorrisos evoluíram, Ana sem querer não conteve uma constrangedora gargalhada. Nas horas sérias isso pode ser contagiante… e foi. A defunta parecia rir também, enquanto a maioria dos presentes olhavam estupefatos para eles. Foi o velório mais animado do cemitério do Catumbi.

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9 thoughts on “O Velório

  1. Valéria on said:

    Oi Luiza… eu detesto velório, cemitério e caixão aberto. Mas nos poucos velórios em que me vi obrigada a ir, sempre ia com um primo que é uma figura… ele passa o tempo inteiro observando e fazendo comentários extremamente engraçados…não porque ele queira fazer graça, simplesmente porque ele é engraçado. Em todos os velórios que me lembro com ele, tivemos que sair para não exagerar nas gargalhadas…
    Inclusive no velório do marido de uma amiga minha, onde o morto tinha sido companheiro de trabalho deste meu primo, de tanto ele falar do morto e rirmos da peripécias de ambos, cheguei no velório e deu os parabéns a ela…. mico bravo!
    Beijo no coração

    • 😀😀
      Valéria, até custa a acreditar, mas eu também já dei “os meus sentidos parabéns”! Até tenho uma historinha sobre isso.😛

      Beijos!

  2. tutankamon3000@live.com on said:

    Ainda bem que não apareceram as carpideiras no velório da anciã dona Albertina!!!!!!!!!!!
    O melhor é beber o morto e bebemorar a sua passagem pela cortina da eternidade.
    A cultura ocidental não entende que este é o melhor momento para festejarmos e muitas famílias enlutadas tem um alto grau de sensibilidade a tudo que não seja sincero,percebendo e se indignando
    com quem finge tristezas…
    Que os Deuses acolham a dona Albertina….
    Bela crônica,gosto dos mortos,nos deixam saudades
    Divina Luisa,
    abraços fortes

    • Tutankamon, esse velório é brasileiro, mas não me parece que seja muito diferente do que se passa por cá. Eu não assisti a muitos, mas a ideia que fica é que, o importante, é mostrar à vizinhança a presença, especialmente se se trata de uma pessoa idosa.

      Grande abraço!

  3. Olá Luisa,

    detesto velórios, mas sei que variam muito em função da região, principalmente aqui no Brasil. Até existe uma expressão que é “beber o defunto”, onde fazem comemorações e bebem pelo morto.

    abraço

    Paulo

  4. Nossa, Lú! Depois do outro que li e que até sonhei… agora este.

    E que situação é esta? Nussaa!

    Pelas bandas de cá já vi coisas muito loucas, e dizem que a gente tem que aceitar por ser um processo natural. Mas, é tenso. Sempre é tenso.

    Saudade da senhora!

    Abração!!

    • Valéria, que bom estares aqui!🙂

      Este conto é do Medina, mas eu também tenho uma historinha parecida, se calhar já leste!😛

      Beijos e saudades!

  5. Obrigado aos comentários de todos e em especial a delicadeza da Luísa em respondê-los por mim. Quando bem jovem eu também detestava enterros, quem pode gostar disso? Dizia: enterro? Só vou no meu. Com o tempo a gente percebe que avida é uma constante invenção e só a morte não dá pra melhorar. Aos vivos, cabe continuar inventando.
    Abraços a todos e obrigado, mais uma vez.

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