Só Contos

Apenas Mais um Arquivo de Palavras

Há Prisões e Prisões

Rua Augusta

Por Luísa L.

Subitamente começou a chover a cântaros e o padre Gregório, imerso nos seus pensamentos celestiais, sentiu na calva cabeça, os grossos pingos salpicados de frias pedrinhas de granizo, que caíam furiosamente do céu. Voltou o rosto para o alto, de cenho franzido e olhar severo, como quem repreende o Senhor por tamanha falta de oportunidade, no envio daquele gelado e húmido fenómeno meteorológico. Apressou o passo, não em demasia, pois a chuva alagava a bonita calçada da Rua Augusta, cujas pedras, lisas e polidas, se tinham transformado, subitamente, num autêntico ringue de patinagem artística. Todo o cuidado era pouco para não ser traído pelas solas puídas, e tantas vezes substituídas, dos seus sapatos cuidadosamente feitos à mão, em cabedal preto, arte em desuso há muitas décadas.

Olhou para a esquerda e para a direita, gesto essencial para decidir em qual das fachadas da grande via, poderia encontrar um beiral, ou um portal que o pudesse abrigar daquela chuva torrencial. Optou pelo lado direito e, com a rapidez que o medo de escorregar e a bonita idade de oitenta e dois anos permitia, chegou finalmente perto de uma montra, de uma qualquer boutique da moda, cujo toldo não estava recolhido. Negligência dos empregados, pensou o severo padre Gregório, que levavam os patrões à falência com tais faltas de atenção, onde já se viu, resmungou baixinho, um toldo aberto com este temporal, ainda vai pelos ares. Na sua mente, pouco grata àquele abrigo quase divino, os empregados eram, a seguir aos sete pecados mortais, o pior mal do mundo.

Enquanto sussurrava uma oração apropriada à conjuntura diluvial, o padre Gregório tirou do bolso da gabardina preta um lenço branco, peça pouco comum nos dias que vivemos, e limpou cuidadosamente os pingos de chuva que incapacitavam os óculos de cumprir a sua função. Voltou a colocá-los encaixando-os devidamente no alto do nariz, guardou o lenço no mesmo bolso e sacudiu a água das mangas do impermeável preto, que cobria a batina, tão negra como as asas dum corvo, até ao joelho.

– Calma aí avozinho, pare lá de se sacudir, assim ainda me vou constipar…

A voz bem timbrada e zombeteira, soara aos ouvidos do padre Gregório como um trovão, fazendo-o dar um salto. Virou-se lentamente para a luz difusa, oferecida pela montra da elegante boutique, pousando os pés no chão com firmeza, como se fosse enfrentar o vento norte a duzentos quilómetros por hora e deu de caras com um mendigo, que tentava proteger-se da chuva, no canto mais escuro da reentrância da porta da loja, completamente colado às grades que a protegiam. Na tentativa de se confundir com as sombras, matutou o padre Gregório, aquela gente estava sempre a tramá-las e logo hoje, que nem um guarda-chuva tinha para se defender, se fosse caso disso. O homem deu um passo em frente ficando parcialmente exposto à luz amarelada da rua, pois o toldo deixava-os na penumbra, e o velho sacerdote abriu os olhos de espanto, incapaz de mexer um músculo que fosse, visto que, o coração quase lhe saltava do peito com a visão que acabava de ter. Passado aquele momento de aflição, e indefinível prazer, ao sentir o sangue, desgovernado, a percorrer-lhe o corpo desde as pontas dos dedos, até ao âmago das suas intimidades, o padre Gregório fez o sinal da cruz e retirou, pelo colarinho da batina, um crucifixo preso num cordão de ouro, que beijou fervorosamente, e, sem tirar os olhos do outro homem, murmurou algo, que soou como Jesus.

– Boa noite padre, chegue-se para aqui, senão vai ficar todo encharcado.

Curiosamente, o homem que tinha à sua frente era uma figura agradável, de estatura média, magro, mas bem proporcionado, calçava botas de montanha, que já tinham visto melhores dias, vestia umas calças de ganga, sujas dum emaranhado colorido de tinta acrílica e um casaco verde, quase pardo por não ver água e detergente há alguns invernos; os seus cabelos, ao comprimento dos ombros, eram claros, revoltos e embaraçados, seguramente clamavam pela urgência duma vigorosa lavagem, e no rosto exibia uma barba acastanhada e rala, com mais de uma semana. Os olhos, dum verde aguado, eram vivos e brilhantes, e, ainda que o velho padre, numa primeira análise, tivesse pensado que a luz que deles vertia, se devia a qualquer substância inominável, sentiu que, do homem não emanava qualquer odor, que não fosse facilmente removido por um bom duche. As linhas do rosto eram bem marcadas, mas, ao mesmo tempo, suaves, e o nariz era grande e aquilino. Louvado seja o Senhor, este mendigo parece Jesus em carne e osso, matutou o padre Gregório, esquecendo-se que naqueles tempos não havia como registar uma imagem colorida, mesmo que de deficiente definição. Mas, o padre Gregório não se impressionava facilmente e, ao longo da vida, já tinha visto demasiados homens que pareciam o Jesus vivo da sua imaginação, este só o deixara sem chão, porque tinha surgido do nada, como uma aparição.

– Boa noite rapaz. Fui apanhado por esta tempestade e sem guarda-chuva.

– Com esta ventania, mesmo que o tivesse, não o conseguiria abrir.

Que mania têm os jovens de pensar que os velhos são ineptos, ora bolas, ainda tinha os braços suficientemente fortes para abrir um guarda-chuva, mesmo tendo que enfrentar o vento.

– Não devia andar na rua a estas horas – disse o homem olhando atentamente para a figura frágil do padre Gregório –, é perigoso. – A voz do mendigo soou galhofeira e irritante aos ouvidos do padre.

– Sei bem cuidar de mim, ora essa! – Outra vez aquele detestável paternalismo.

– Desculpe, não o quis ofender.

Não faltava mais nada, um mendigo a dizer-lhe o que ele tinha de fazer, até o diabo se ria. Mas, como tudo na vida, nada é eterno, nem as paixões momentâneas, nem as outras. Então, a pouco e pouco o espírito do padre Gregório, que fervia em pouca água, foi amansando, e não tardou a ser invadido pela piedade inerente à sua condição de homem de Deus.

– Meu filho, quando a chuva parar também deveria ir para casa e comer qualquer coisa, talvez o possa ajudar… – Disse o velho, começando a vasculhar num bolso por debaixo da gabardina – tenho para aqui uns trocados…

– Deixe lá isso avozinho, hoje vendi um desenho que me valeu o jantar e as próximas refeições. Se o tempo ajudar, amanhã vendo outro.

Foi nessa altura, que o padre Gregório reparou numa maleta de madeira, encostada à grade da porta da loja, assim como um porta desenhos de forma cilíndrica e um cavalete desmontado, atado à pega da mala. Afinal, aquele rapaz em forma de Cristo, não era mendigo mas um pintor, embora isso, pouca diferença fizesse na catalogação pessoal do velho eclesiástico, que mantinha os pintores, atores, prostitutas e travestis, um nível abaixo dos mendigos. Afinal os mendigos esmolavam com decência, sem recorrerem a subterfúgios pseudo-intelectuais, muito menos à venda direta ou indireta de favores sexuais.

– Aceite lá, rapaz, se os próximos dias se mantiverem assim, mesmo abrigado debaixo dum toldo, ninguém vai parar para lhe comprar um quadro. – Insistiu o padre Gregório, metendo na mão do pintor, um tanto suja de tinta onde predominava o azul, duas notas meticulosamente dobradas em quatro partes.

– Obrigado, padre, se não lhe faz falta, a mim dá-me sempre jeito. – Disse o homem mais novo, colocando as notas no bolso do casaco. – Mas deixe que lhe diga, a sua conversa desmoraliza. – Riu-se.

– Só sou realista, jovem. E digo-lhe mais, podia poupar o dinheiro das refeições, se fosse fazê-las ao centro de acolhimento dos Anjos, é aqui pertinho.

– Ah, eu conheço esse centro, mas agora não me dá jeito ir lá. – Riu-se para dentro, dizendo para ele mesmo, que não lhe dava jeito porque estava a chover.

– Mora longe?

– Moro onde me apetecer. Hoje moro aqui.

– Então não tem casa, é um sem-abrigo… mas pode ficar lá no centro, eles têm sempre lugar para mais um nestes dias tão frios. Não pode ficar aqui… ainda adoece.

– Não posso padre, fui condenado a viver três meses na rua… pode ser em qualquer lado, desde o Mar à fronteira espanhola e de Caminha ao Algarve, neste espaço todo, o céu é o limite…

O rapaz, para além de pintor é pílulas, pensou o padre Gregório, ou então é poeta, o que vai dar ao mesmo. Ora esta, só lhe faltava estar a falar com um maluco, e o raio da chuva que não abrandava, se queria morrer gelado ou doente, era lá com ele, o centro ficava a quinze ou vinte minutos dali, só um doido é que não aproveitaria. Talvez fosse um desses fanáticos esotéricos, que levam ao pé da letra, tudo o que qualquer cartomante diz, ou então uma testemunha de Jeová com o cérebro mais afetado que o resto do rebanho. O que ele não era, certamente, era um homem criado no seio da verdadeira fé cristã e no escorreito caminho do catolicismo, disso tinha o padre Gregório a certeza, os seus ele conhecia à distância.

– Meu filho, fosse quem fosse que o condenou a tamanha pena, com certeza não estava a falar a sério… – começou o padre cautelosamente.

– Ah padre, diga isso ao Tribunal da cidade.

– Ao tribunal!?… O que fez você, jovem, para ser condenado por um tribunal?

O padre Gregório sentiu-se baralhado, coisa que não lhe acontecia com frequência. Aquele sósia de Cristo parecia tão seguro das suas palavras, que se tornava tentador acreditar nelas, mas, o mais provável era ele ser fugitivo dum hospital psiquiátrico. Já tinha ouvido histórias de doentes, que parecem pessoas normais, mas na verdade são frios e perigosos assassinos, que só precisam da oportunidade certa para esquartejarem. Contra a sua vontade, foi percorrido por um gelado arrepio, que lhe eriçou todos os pelos do corpo. Discretamente, olhou para um lado e outro da rua, mas não passava vivalma. Estava tramado.

– São coisas que acontecem, padre… as tintas estão caras, eu já devia um bom dinheiro ao dono da loja e, um belo dia, passei por lá para ele me fiar mais umas quantas. O filho da puta, desculpe, apanhou-me à traição e, com a ajuda da mulher, correu comigo aos murros e pontapés. Fiquei todo lixado, com a cabeça aberta e a escorrer sangue por tudo o que era lado. Fiz queixa do cabrão quando fui ao hospital e, uns dias depois, encontrei o cobardola ali para os lados do Chiado, e não me contive, dei-lhe um enxerto tão grande, que o deixei duas vezes pior do que ele me deixou a mim. Soube-me bem, avozinho. Bom, fomos os dois parar à esquadra da polícia e, há umas duas semanas, fui a tribunal; o Juiz condenou-me a três meses de prisão domiciliária… – Concluiu, rindo a bandeiras despregadas. – Percebe agora, padre, porque não posso dormir no abrigo? Se a polícia me apanha lá, leva-me de cana outra vez. Aqui para nós, eu prefiro dormir nesta imensa prisão, que é o meu país, do que numa cela da esquadra da polícia.

– Isso é a decisão mais estapafúrdia que eu, em oitenta e dois anos, ouvi. Até me custa a acreditar.

– Pode ver os autos no tribunal, se quiser. – Disse o homem mais novo, sorrindo.

– Não é em si que não acredito, jovem, é uma maneira de dizer… estou espantado com esse absurdo. Não cabe na cabeça de ninguém, condenar um sem-abrigo a prisão domiciliária. Se o Juiz quiser conversar consigo, vai buscá-lo aonde? Aos claustros da Praça do Comércio, à escadaria do Teatro D. Maria, ou à Torre dos Clérigos no Porto… mas, repare… isso não o impede de ir para o centro de acolhimento!

– Claro que não avozinho, estava só a brincar consigo. Sempre tínhamos que passar o tempo, não é? Vou agora para o centro dos Anjos, pois preciso de fazer a barba…olhe, a chuva parou.

– A aproveitar-se dum velho para se divertir, isso não é uma ação cristã.

– Talvez não seja, mas foi engraçado ver a sua cara de espanto. Vai para longe, padre, quer que eu o acompanhe a algum lugar? É que já é tarde…

– Não preciso de ama, querem lá ver! Que mania. Mas, já que vai para os Anjos, eu faço-lhe companhia pois vou para Arroios.

– Então vamos, não tarda nada começa a chover outra vez. – Disse o homem, pondo a bagagem, que estava encostada à grade, nas costas.

– Não consigo conformar-me com essa decisão do Juiz. Já vi muitas decisões erradas, mas nunca uma tão absurda como essa. Um erro é um erro, qualquer pessoa está sujeita a cometer um, mas uma anormalidade dessas, só mesmo quem não sabe o que está a fazer. Devia ter-lhe dito que isso era uma idiotice de todo o tamanho. Prisão domiciliária…

– Eu não, ainda me multava por desrespeito ao tribunal… fiquei calado. Sabe aquela metáfora da corda, ainda partia para o meu lado. Ná, boca calada.

– Este país está a saque, já não bastam os políticos serem uns ladrões, uns fedelhos bonitinhos e incompetentes, ainda temos que levar com uma justiça idiota, para além de lenta… está bonito, está…

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