Só Contos

Apenas Mais um Arquivo de Palavras

Curiosidade Sobre a Morte

Art by Vladimir Kush

Por Ivani Medina

Bené estava aposentado há poucos anos e vez por outra pensava na morte. Não por medo, o que é muito natural, mas por curiosidade. Permitia-se a ela para fugir ás lembranças da rotina do banco que o enfastiavam e lhe traziam a sensação de tempo de vida perdido. Ainda não estava bem adaptado ao ócio e a rotina do apartamento vazio. Viúvo, com os dois filhos criados e casados, havia aposentado também a antiga empregada da família depois da morte da esposa. Resolveu ficar só com os seus botões. Dava conta de si mesmo e quis tirar férias do gênero humano.

 Bené passou a frequentar a praia bem cedo, a qual antes dava pouca importância. O pessoal do horário das 06h30min é bem diferente dos demais frequentadores de Copacabana dos outros horários. Jovens, maduros ou velhos não precisam conhecer o outro para cumprimentá-lo com um sorriso simpático e um “bom dia” cordial. A continuidade dá grandes chances de se promover amizades de todo tipo, mas Bené estava em férias.

Seu Benevides, era assim que os funcionários do prédio onde morava o chamavam, não perdia tempo com lamentações, mas tinha lá suas manias. Uma delas era que ele detestava as chamadas “lições de vida”. Quando alguém soltava algo do gênero Bené não fazia cerimônia, virava o rosto para o lado e se afastava da pessoa como se ela não mais existisse. O garagista do prédio não gostava dele por causa disso. Porteiros e zeladores, que o conheciam há bastante tempo, caíram na pele do infeliz filosofeiro da garagem.

Às vezes, Bené parecia se transportar para outra realidade sensorial, quando se entregava ao vazio mental acariciado pela brisa do mar, pelo cheiro de maresia na delícia de uma sombra amiga vendo a vida circundante a borbulhar. Era a poesia real sem papel e tinta. Foi um desses hiatos de beleza que o mandou para o hospital. Acordou com um gosto de remédio na boca com uma mulata simpática vestida de branco olhando para ele a indagar como se sentia.

─ O que houve?

─ O senhor foi atropelado na av. Atlântica.

─ Caramba! Não me lembro de nada…

─ Mas nem se preocupe. O senhor teve muita sorte.

É… estou velho de verdade, podia ter morrido e matado a minha curiosidade. Pensou zombeteiro consigo mesmo.

O atropelamento trouxe uma novidade pra lá de curiosa a vida de Bené. Passou a ter sonhos tão reais que o confundiam. Pensou que a batida com a cabeça no asfalto lhe tivesse deixado uma sequela de loucura irreversível. Entendeu que era melhor, por ora, não comentar nada com ninguém, nem com os filhos. Em sonho tudo é normal, por mais absurda que seja a situação. Com certeza aquilo ia passar. Contudo, havia uma ordenação naqueles sonhos que não passavam, que em nada se diferenciavam, nesse sentido, da sua vida real. À noite, quando se recolhia, Bené sabia que chegava a hora de despertar naqueles sonhos previsíveis. Isso mesmo, ao dormir em uma, seu Benevides despertava em outra vida.

Acabou se acostumando e gostando daquela situação. Era a realidade em dobro em uma existência só, como numa simpática promoção comercial do acaso. Bené passou a se experimentar mais e viu que as mesmas manias tinham o mesmo efeito nas pessoas do lado de lá dos seus sonhos. Vivia situações diferentes nas oportunidades, mas absolutamente iguais de conteúdo e reação humana, inclusive as dele. Nada mágico ou especial, senão aquilo que experimentava. Acabou se adaptando a inusitada situação mais rápido do que na vida de aposentado em um apartamento vazio de pessoas. As férias haviam terminado com a jornada dupla.

Assim foi, até que um dia, num passeio de barco na vida de lá, por conta de um hiato de beleza daquele de Copacabana, desequilibrou-se e bateu com a cabeça na borda falsa caindo no mar sem que ninguém percebesse. Quando deram por sua falta já era tarde. Despertou com a boca salgada e uma estranha sensação de perda. À noite, ao se recolher se perguntava: será? Quando despertou no dia seguinte teve certeza. Estava na mesma cama do apartamento de Copacabana e na vida de sempre. Finalmente havia encontrado a resposta.

É morri. Mas não morri muito.

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