Só Contos

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As vontades do menino

Cavalos no quintal

Por Ivani Medina

Mudou-se para a casa de grande quintal uma família simples e batalhadora. A melhor sucedida entre eles era a filha do casal, que se tornara proprietária de uma confecção de roupas. O mais velho dos rapazes montara uma estamparia de serigrafia em outro bairro e dava apoio à irmã. O mais novo, o único ainda a morar com os pais, tinha alguns cavalos para passeios domingueiros de crianças e turistas naquela cidade do interior.

O casal chamava o filho de vinte e seis anos de “menino”. O menino chamava-se Armindo. Diziam eles que Armindo era muito sistemático e sofria dos nervos, não podia ser contrariado. Cada vontade do “menino” era uma ordem para os velhos, mas os irmãos não deixavam barato. Por outro lado, seus irmãos, também evitavam dificuldades desnecessárias porque não tinham uma solução a oferecer que isentasse os pais de maiores sofrimentos.

O vizinho ao lado deu-lhes as boas vindas e passaram a conversar eventualmente. Com o tempo um clima de camaradagem se desenvolveu entre eles. O bom senso diz que é melhor se dar bem com a vizinhança do que com parentes. Antero, o vizinho já residente, era de boa paz, mas não era um tolo. O jeitão manso dele fazia gente de má índole se enganar. No início, em alguns fins de semana, a casa dos novos vizinhos ficava cheia, de filhos, netos e convidados do casal para o churrasco. Tudo na mais santa paz. Gente divertida aquela, pensava Antero.

A matriarca sempre preocupada em agradar o seu “menino” era usada e abusada por ele sem a menor cerimônia. Até que Armindo, para reduzir suas despesas com os animais, resolveu guardá-los no quintal da casa ocupada legalmente pelos pais. A velha mãe além de cozinheira, arrumadeira, lavadeira, passadeira etc. ia virar também cavalariça. Quando os cavalos chegaram, Antero não acreditou no que viu. Ainda assim, resolveu dar um tempo e averiguar, pois poderia ser uma solução momentânea. Preferiu nem tocar no assunto e seus vizinhos optaram pelo mesmo, sabedores de que aquela vontade do “menino” poderia gerar reclamações da vizinhança.

Passados dois dias, Antero colhendo algumas goiabas do seu quintal puxou assunto com o vizinho que visivelmente o evitava.

─ Bonitos cavalos.

─ É, são sim. São do meu “menino”. Ele agora vai guardá-los aqui. No antigo lugar estava dando problema.

─ Imagino. A prefeitura não permite criação de animais no perímetro urbano. O mau cheiro e o perigo de doenças incomodam e preocupam os demais, não é senhor?

─ É verdade… Eu falei com ele, mas o “menino” nem quis saber. Ele sofre dos nervos e o senhor sabe como é nos casos assim, né?

─ Olha vizinho, francamente, eu vejo a sua senhora se empenhando para evitar o incomodo, mas não tem sido suficiente. O cheiro está insuportável e as moscas quadriplicaram por aqui. O ideal seria que essa dificuldade se resolvesse em família mesmo.

A falta de autoridade dos pais para com o “menino”, acostumado a ver suas vontades satisfeitas, estava caminhando para uma questão maior. Armindo resolveu instituir clima de guerra contra Antero. Uma situação ridiculamente absurda chegara com os novos vizinhos, coisa que jamais passaria pela cabeça de qualquer um. Educação é algo muito sério e não permeia o repertório de vida da maioria das pessoas como deveria. Essa conversa de que gente simples é gente boa, é muito relativa. A tal simplicidade também tem um enorme potencial para gerar problemas complexos. O jeito foi Antero queixar-se a prefeitura.

Os cavalinhos do “menino” tiveram que ir para outro lugar e o clima entre os vizinhos tinha irremediavelmente se estragado. Armindo estava decidido não dar trégua às provocações a Antero, e seus pais lamentavam nada poderem fazer para demover o filho da sua estúpida intenção. Aquilo que era uma dificuldade familiar tornou-se um caso entre vizinhos, depois um caso com a prefeitura e poderia tornar-se um caso de polícia como acirramento dos ânimos.

Porém, como todo corcunda sabe como se deita, para surpresa de Antero, justo na semana seguinte aos fatos desagradáveis, ouviu a voz aflita do vizinho a chamá-lo por cima do muro. Era quase dez horas da noite.

─ Seu Antero! Seu Antero! Boa-noite seu Antero, me desculpe incomodá-lo, mas nós estamos muito aflitos. Sabemos que o erro foi todo nosso. Mas é que o nosso “menino” sofreu um atentado depois de guardar os cavalinhos dele num terreno baldio de um conhecido. Deram um tiro na cara dele, mas ele conseguiu escapar. O carro dele ficou abandonado no meio da rua e a polícia já está lá. O senhor se importaria de trazer o carro dele para a gente?

Antero não conseguiu se negar e nem pensou no perigo que poderia estar correndo. Foi parar num lugar escuro de um bairro da periferia. Identificou-se junto aos policiais e trouxe o automóvel com o vidro do lado do motorista estilhaçado e o volante melado de sangue. A sorte de Armindo foi que com o vidro fechado o disparo de espingarda de caça calibre vinte não pegou em cheio e reduziu a velocidade dos grãozinhos de chumbo. Mesmo assim, feriu-lhe bastante o rosto e cegou um dos seus olhos. Soube-se por intermédio dos policiais.

Semanas depois, para alívio de Antero, aqueles vizinhos se mudaram. Ninguém soube para aonde. Só que a mudança foi tão corrida quanto misteriosa. Disseram que além dos cavalinhos, o “menino” deles estava envolvido com venda de peças de motos roubadas e jurado de morte.

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10 thoughts on “As vontades do menino

  1. Pingback: As vontades do menino | Contos e Crónicas | Scoop.it

  2. Ivani Medina on said:

    Obrigado, Luísa.
    grande beijo.

  3. Sérgio Werneck de Figueiredo on said:

    Parabéns, Ivani Medina.
    Meninos assim, depois de uma chumbada de cartucho 20, com chumbo fino, podem encontrar uma 12 com balote ou chumbo 3T.
    Mas, se a sorte lhe sorrir, pode se revoltar, fazer escândalo, chamar a atenção da mídia e se tornar político ou até presidente…

  4. Olá Ivani, bom dia. Quando te leio tenho a sensação que observo um cirurgião a usar o bisturi. Para essa função parece-me evidente que não se pode sofrer dos nervos, senão a mão não é tão firme. Adorei, como sempre, o texto. Muito obrigado, um sorriso e um caloroso abraço.

  5. É a existência de “meninos” destes que me leva a pensar, ou melhor, a repensar em certas coisas….é que estes, safam-se sempre.
    Gostei muito da sua história, parabéns :)

  6. Ivani, sua frase foi perfeita: “Essa conversa de que gente simples é gente boa, é muito relativa…”
    Os pais precisam saber dizer não aos filhos como uma atitude de amor para depois, num futuro, não perderem o controle e ficarem à mercê das vontades muitas vezes insanas. É por isso que tem muito filho batendo em pai por aí…
    Muito bom texto!!

    Sandra F.

  7. Ivani Medina on said:

    Obrigado, Sandra. A educação responde às nossas queixas e satisfações.
    Grande abraço.

  8. Ivani Medina on said:

    Ah, Sergio kkkkkkkkkk
    Essa foi ótima. Muito obrigado e um forte abraço.

  9. Ivani Medina on said:

    Meu caro José
    Eu é que agradeço as tuas palavras e a competencia de sempre aos usá-las.
    Forte abraço

  10. Ivani Medina on said:

    Obrigado, Lenore. Contar estórias ou mesmo histórias é uma das nossas satisfações. A outra é ser lido e acatado, especialmente, por escritoras como você.
    Grande abraço.

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