Só Contos

Apenas Mais um Arquivo de Palavras

Ser diferente

Perfeito!

Por Ivani Medina

O zelo pelas diferenças pessoais é antigo. O culto às diferenças como forma de autovalorização cresceu tanto, mas tanto, tanto, tanto… só para se descobrir que não saímos do lugar. Aquilo que mais facilmente provoca um sorriso de satisfação é justamente o oposto: a constatação da identidade. E quanto mais ridícula a tal constatação, melhor. Sim, ver-se idêntico ao outro extraoficialmente é muito divertido, ainda que tristezas possam sobrevir.

Alba cresceu sem saber que para ser diferente não precisava fazer força alguma. Filha única, pelo que ouvia dos pais, imaginava-se num interminável aprendizado para se tonar uma moça especial, diferente das outras. Daquela prontamente identificável por um rapaz muito especial, como ela. Só faltava o mundo especial no qual eles pudessem viver uma vida para sempre diferente e especial.

A adolescência a iniciou nos ensinamentos que lhes são próprios. Alba começou a perceber que os meninos pelos quais se sentia atraída não correspondiam ao padrão imaginado. Não eram tão educados, estudiosos ou coisas do tipo, eram sim muito divertidos e ela adorava. Nem por isso descuidava de si mesma por causa da diversão. Ser uma moça diferente continuava a ser seu projeto de vida. “A menininha do papai”, como seus colegas gozavam dela, era querida e protegida por todos. Estava saindo-se bem no seu propósito familiar.

Quando seus hormônios começaram a bater panelas, ela mal conseguia dormir analisando suas possibilidades. Conheceu um rapaz, especial aos olhos da sua família, pelo qual caiu de quatro. Mas ele não. Os poucos contatos que tiveram deixaram nela a marca de um longo e inesquecível amor. Fantasias de um lado e instinto do outro deram prosseguimento, até que outro rapaz, que estava mais para sapo do que para príncipe, ouviu o panelaço de Alba. Família em pânico já imaginando a moça diferente no altar com um sujeitinho qualquer, enquanto aquele encontro não passava de uma oportuna realização sexual para ambos. Nada diferente dos demais, mas quem podia pensar assim naquela família?

A mãe de Alba, desesperada, só faltou botar e costurar o nome do sapo e falso pretendente na boca de outro batráquio, para ver se a mandinga pegava. Afinal, parecia estar em risco o meticuloso plano de família acalentado e duramente trabalhado em todos os sentidos. Portanto, todos os recursos disponíveis deveriam ser levados em conta para se evitar um desastre. Todavia, desastre não bate a porta da frente e nem pede licença para entrar. O destino, quase sempre muito safado, acabou estabelecendo diferenças, entre Alba e as outras moças do seu próprio grupo, por onde ninguém poderia imaginar.

Depois do seu divertido sapo, Alba, passou um tempo em recesso, até que foi se interessar pelo noivo da sua melhor amiga e foi correspondida. Eles todos se conheciam havia muito tempo quando a derrubadora paixão surgiu. Aquela mania de ficar revelando intimidades geralmente não dá certo. Se não justifica, ajuda muito. Bomba! A rejeição dos amigos foi tão grande quanto à decepção da família de Alba com ela.

Seu pai quase morreu de desgosto, a mãe, mais próxima da realidade da filha, já previa o impacto, mas sentiu-se incapaz de evitá-lo inclusive pelo quanto vinha ocultando do esposo. Quando os pais de Alba se conheceram ele ainda era solteiro, ela não. A paixão fez com que largassem tudo para trás e mudassem de estado e de vida. Alba seria a ameixa do pudim da vida nova. Foi muito difícil para eles ver aquela sobremesa no chão. Felizmente, nunca houve na história do aventureiro casal nada que desmerecesse a coragem que sempre tiveram de recomeçar.

O casamento malfadado da filha durou pouco e resultou numa menina. Foi esta criança que ajudou no restabelecimento da saúde do avô. Para Alba, em meio a tantas surpresas constrangedoras da vida, havia sobrado ao menos uma certeza: com a filha ia ser diferente.

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8 thoughts on “Ser diferente

  1. Sérgio Werneck de Figueiredo on said:

    Pois é, Ivani Medina, sempre pretendemos que nossos filhos sejam mais bem sucedidos que nós.
    Para que isso ocorra tentamos mudar rumos e orientações, tudo para que eles se saiam melhor do que a matriz.
    Quem disse que não aprendemos muito com nossos erros?
    Acabamos por traduzir esse aprendizado torto em desejos de perfeição para os nossos pequerruchos. Eles é que sofrem ao tentarmos, tal qual Pigmalião, esculpir nossas Galateias, para depois soltá-las nesse mundo de príncipes transformados em sapos. Mesmo que sejam sapos apenas aos nossos olhos ciumentos, exclusivistas, cheios de soberba, pretensiosamente diferentes dos demais mortais.
    Assim como não somos os donos do mundo, também não o somos de nossos filhos.
    Resta-nos então a educação e a torcida cheia de esperanças, para que tudo seja bom no mundo lá fora, pelo menos para eles…

  2. Pingback: Ser diferente | Contos e Crónicas | Scoop.it

  3. Ivani Medina on said:

    Obrigado, Luísa.

  4. Ivani Medina on said:

    Olá, Sergio

    Obrigado, mais uma vez e um forte abraço.

  5. Luisa,

    Os pais tiveram essa mesma realidade quando deram luz a Alba, queria que tudo fosse diferente do que lhes tinha acontecido, infelizmente aconteceu novamente.
    Não adianta prender a criança a um padrão do que eles querem que ela seja, ela decide o próprio destino e cabe aos pais apenas lhe ensinar o caminho certo, no qual ela caminhou por linhas tortas.

    Esperamos que da próxima vez seja diferente, mas não se pode traçar o destino a pequena menina decidirá.

    Adorei o texto, um grande beijo.
    Tenha um ótimo domingo.

  6. Por aqui costuma dizer-se que no melhor pano caí a nódoa…e é bem verdade. Queremos sempre mais e melhor para os nossos filhos que nos esquecemos que era isso que queríamos para nós…filhos têm de seguir o seu caminho, os pais, seguram a candeia.
    Beijos :)

  7. Pingback: Ver! | Blog | Ser diferente

  8. Os pais sempre esperam que os filhos não cometam os mesmos erros… quando ainda são jovens eles dizem: ” quando tiver meus filhos vai ser diferente”

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