À mesa

“A mesa da casa amarela” de Vincent Van Gogh
Por Lost Lenore
Todas as conversas na minha casa começaram na mesa da cozinha. Acho que em todas as casa deve ser o mesmo; a comida na mesa, os pratos desiguais, os talheres manchados e os copos lascados pelo uso.
Aqui todos temos um lugar marcado e uma hora marcada mas ao contrário de uma cirurgia, temos mesmo de começar a comer às oito da noite e em silêncio para se ouvir o telejornal com as notícas do dia, não se pode mesmo falar e temos de ter muito cuidado para não entornar nada nem sujar a toalha velha.
A conversa começou do nada, sem pés nem cabeça, sem introdução nem antecipação. Foi qualquer coisa que começou em media res ainda com as colheres a meio caminho da boca, tempo suspenso e sopa amarga. Disseste que te ias embora, que estavas farto de nós, das acções, das coisas loucas e desgostos que te dávamos…e levantaste-te e saíste ainda nem o telejornal estava a meio.
Desde esse dia que nunca mais ninguém comeu à mesma hora nem ao mesmo tempo. Tu saíste, eu saí, ele saiu e ela ficou sozinha. Passaram-se anos e anos e dias. Eu voltei, tu reapareces de vez em quando, ele vem apenas durante uns dias e ela nunca partiu…e todos juntos somos família.
E todas as conversas na minha casa começam na mesa da cozinha, à mesma hora todos os dias, com os mesmos pratos, copos, talhares manchados pelo uso de anos anteriores; todas as conversas começam com “passa-me o sal” porque verdade seja dita, há lá forma melhor de se manter as feridas abertas…












Sê bem vinda a este espaço, Lenore!
Parabéns pela tua escrita envolvente e sedutora. Adorei o teu conto!
Um grande beijinho.
Obrigada
Eu é que agradeço a oportunidade de participar aqui neste espaço maravilhoso.
Beijinhos.
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Boa noite Lenore. Os meus mais sinceros parabéns, confesso que partilho consigo esta ideia de observar a mesa de cozinha como um barómetro do que de bom e não tão bom existe numa casa e é lançado no mundo. Nas salas de jantar domina a etiqueta, nas cozinhas não será tanto assim. As cozinhas serão, à semelhança deste seu texto, mais humanas, mais pungentes. Gostei imenso. Um forte abraço para si.
Acho que tudo começa e acaba na mesa da cozinha…
Obrigada José, beijinhos.
Olá, eu gostei muito do texto, é verdade quantas feridas são expostas nas refeições do dia a dia, eu me lembrei de várias quando morava com a minha família, acho que é um costume familiar rsrsrs
Parabéns pelo texto
bjs
Olá e obrigada

Realmente, acho que todos já tivemos experiências destas. É quase uma tradição
Beijos
Toca-se mais facilmente nas feridas abertas de quem somos mais íntimos e iguais.
As grandes casas brasileiras antigas contavam com uma sala de almoço e uma de jantar, essas mais solenes e refinadas.
No entanto, ambas serviam para a reunião da família e, na parede principal, em posição visível e central encimava-se o quadro da Santa Ceia.
Seguramente, a mesa e as refeições sempre foram o ponto alto das reuniões das famílias.
Além do sal, muita vez, nesses momentos, passa-se também a pimenta, alguma comida mais difícil de digerir, mas também a comida fresca, feita com amor e um doce caseiro saboroso, do qual nunca mais se esquece.
Como dizia minha saudosa avó em nossas refeições: “- Passe-me a compota de doce, por que de amarga já basta a vida…”
Parabéns, Lenore, from now, Found.
Olá
Concordo plenamente com a sua avó, para amarga já basta mesmo a vida…
Obrigada
Conversas começam e as vezes terminam no mesmo local ….
Verdade….outras vezes ainda parece que nunca acabam…
Finalmente conseguirei postar meu comentário. Estive com dificuldades de postar, não sei o porquê?
Mas, Lenore
meus parabéns. adorei o seu conto.
Obrigada
Não apenas no Natal e Ano Novo…
Triste de uma família que não se reúne à mesa, para cantar ou chorar.
Se a comida aquece o estômago, as conversas aquecem os corações.
Nem sempre de imediato. Mas, como uma boa digestão, lentamente…
Gostei!
Um abraço.
Obrigada Beth