Só Contos

Apenas Mais um Arquivo de Palavras

Por onde andava?

Sem rosto

Por Ivani Medina

Por onde andava? Não que a resposta tivesse qualquer importância, pura retórica na constatação da ausência. Não que a ausência tivesse qualquer importância, somente palavras de contato na falta de assunto. Não que a falta de assunto os incomodasse, pois era assim mesmo havia anos. Serviçais não tem rosto, têm cara, e as suas ausências só são percebidas quando estão fora do posto de trabalho ou quando desaparecem diante de uma necessidade de alguém. Quem estiver fugindo da polícia é só vestir um macacão cinza, enrolar um pano de chão úmido num rodo e ficar pelos coredores de um edifício comercial a esfregá-lo no chão pra lá e pra cá. Invisibilidade garantida.

Genival era zelador daquele prédio comercial desde que o primo lhe ofereceu o próprio emprego, antes de voltar de vez para a sua cidade no Nordeste. Ele havia amealhado com a jornada dupla de camelô da noite o suficiente para montar um pequeno negócio em sua terra natal, sonho acalentado desde que veio para o Rio de Janeiro. Na época, Genival fizera uma besteira por lá e fugiu às pressas para o Sudeste. Seu primo, Joilson, ficou aperreado, mas não se negou a estender a mão àquele pecador. Arre égua! Chamou Genival para conversar, explicou a sua intenção de voltar para o Nordeste, mas pediu a ele que não contasse a ninguém que estava ciente da besteira cometida por ele. Genival jurou pela alma da sua mãe.

Genival esteve encostado uns dias pela previdência por conta de uma apendicite. Cabra forte que nem só, estava de volta ao serviço, porém não esperava que alguém tivesse notado a sua ausência. O doutor Carlos Lameira era um dentista do décimo andar, antigo e muito conhecido no prédio. Seus méritos profissionais eram conhecidos e reconhecidos até em outras cidades. Foi acompanhar um paciente até a porta do consultório quando topou com Genival e o seu pano de chão. Quando o zelador levantou os olhos para responder ao dentista tomou um choque. O cliente dele era ninguém menos do que o delegado, agora aposentado, de Barreiras, interior baiano. O velho policial não o reconheceu de pronto, mas percebeu algo no rosto daquele sujeito.

Genival até que foi bem, procurou manter a calma mesmo com o coração a galope. Sabia que o delegado não o havia reconhecido. Pelo sim, pelo não melhor seria se precaver, pois foi julgado à revelia e a pena a que foi condenado ainda não havia prescrito. Bandido quando foge não procura trabalho. A falta de Genival para com a sociedade foi um homicídio. Havia um fulaninho de família importante que vivia perseguindo a sua irmã. Ele foi tomar satisfação e foi humilhado como uma surra por ele e seus parentes. Voltou a casa pegou a peixeira e estripou o infeliz. Com a disposição que estava ninguém se atreveu conter Genival.

Como não havia testemunha a seu favor, sabedor de que gente humilde contra família importante já está condenada por antecipação, Genival resolveu fugir. A família do morto também que ria o seu couro. O delegado era conhecido, mas ele não, ao menos no mundo do crime. A família da vítima espalhou a foto da carteira de trabalho de Genivaldo pela cidade e a polícia se empenhou na divulgação. Aquele delegado que na ocasião tinha pretensões políticas era o que mais aparecia com a foto dele na mão. Nunca haviam se encontrado pessoalmente, daí não reconhecê-lo de pronto. Muita água já devia ter passado por baixo daquela ponte e, para ele, Deus sabia que o que fez foi para defender a honra dos seus e a própria.

Talvez o melhor fosse ir logo para São Paulo. Contudo, soube que a situação por lá para nordestinos aventureiros estava nada boa. Melhor seria aguardar um pouco de orelha em pé, para saber que rumo à possibilidade de uma suspeita havia tomado. Forçava encontros nos corredores do décimo andar com o doutor Carlos Lameira para ver se alguma pergunta ou comentário indicava algo. Nada, além do comentário do dentista observador quanto a sua relativa assiduidade àquele andar. Perguntou se ele tinha conseguido uma namorada por lá. A sua ansiedade estava dando na vista.

Telefonou para Joilson e contou tudo recebendo uma resposta tranquilizadora.

─ Rapaz que friagem você passou. Mas olhe… se aperreie não. Por aqui não se fala mais no assunto e é bom não ficar perguntando para não alarmar o que está esquecido pelo povo.

 Duas semanas haviam se passado e nada. A vida acabou voltando ao normal. Até que, dois meses depois, um colega de faxina veio avisar que o síndico estava procurando por ele. Eventualmente uma reclamação de água por baixo da porta de alguma sala ou outra coisa do tipo causava isso. Quando chegou a sala do condomínio, notou além do síndico a presença de dois jovens fortes vestindo camisetas cinzentas.

─ Senhor Genival Capiberibe?

─ Sim, sou eu.

─ Somos da polícia e estamos aqui para cumprir um mandado de prisão contra o senhor expedido pela justiça de Barreiras, no estado da Bahia.

Quando desembarcou em Barreiras a justiça eleitoral já havia liberado a propaganda política e um cartaz no quintal de uma casa chamou sua atenção. Era o delegado aposentado que não o havia reconhecido. Eleições fazem milagres e a sua prisão bem trabalhada pela mídia local poderia ajudar muito a conduzir o velho policial à Câmara dos vereadores. Quando chegou à delegacia para cumprir as formalidades junto ao sistema prisional, identificou dois homens com adesivos no peito da campanha do antigo delegado. Eram parentes da vítima.

─ Olá Genival. Há quanto tempo, né? Por onde andava?

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11 thoughts on “Por onde andava?

  1. Olá Ivani, boa tarde. As tais linhas tortas mas que poderão nada ter de divino.
    Um abraço e boa semana.

  2. Roberta on said:

    Nossa que tenso!
    o crime será pago com outro crime…
    suspense no ar!

    gostei do texto!
    Parabéns!

  3. Sérgio Werneck de Figueiredo on said:

    Felizmente, Genival não pode entrar na faca, apesar da gana dos dois parentes, pois é o trunfo do ex delegado para as eleições…
    Te cuida, Genival!
    Êta estória arretada da gota serena!…

  4. Pingback: Ver! | Blog | Por onde andava?

  5. Pingback: Por onde andava? | Contos e Crónicas | Scoop.it

  6. É a justiça … tardia, falha e as vezes interesseira ….ou não.

  7. Ivani Medina on said:

    Luísa, obrigado pela força.

  8. Ivani Medina on said:

    Olá José

    Pessoalmente não considero o divino. O que é torto é torto mesmo.
    Forte abraço.

  9. Ivani Medina on said:

    Obrigado Roberta

    a realidade diária dá de dez a zero na fantasia.
    Abraço.

  10. Ivani Medina on said:

    Arre égua, Sergio. Viiixi
    Forte abraço.

  11. Ivani Medina on said:

    Olá Joselito

    mais uma vez, muito obrigado pela sua assiduidade aqui.
    Forte abraço.

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