E um homem… se fez anjo

Anjo
Por Vera Alvarenga
Ele estava lá, sozinho pensando em como continuar, qual seria o próximo passo a dar.
Sentia-se desolado com a própria incapacidade de decidir sobre o rumo de algumas coisas, com sua impotência diante do imprevisível, com a impossibilidade de controlar o bem e o mal, a dor e o medo. O que poderia dizer para dar a ela um pouco de esperança, força, fé, diante de tão grande desafio? E ela parecia tão pequena…e frágil agora, depois das primeiras, corajosas, mas frustradas tentativas em busca da própria cura.
O que poderia fazer para devolver a si próprio e ao seu coração a tranquilidade dos dias que já iam longe no tempo? Aqueles dias se foram para sempre, junto com a juventude e a inocência dos que, sem pressa, pensam que o tempo lhes pertence e permitirá que as alegrias se perpetuem na vida. A vida, agora ameaçada. Não apenas a vida dela mas, igualmente a sua, em conseqüência.
Nada e ninguém era para sempre. De cabeça baixa, no escuro da noite, deixou que algumas lágrimas rolassem de seus olhos. Sensibilizara-se por ela, mas as lágrimas eram também por sua própria história. Ninguém veria. Ali, sozinho, estava livre para chorar, sentir o assombro diante de sua insignificância. Não tinha tanto poder como imaginara. Não tinha aliás, nenhum poder. Sentiu certo alívio por desarmar de si mesmo a postura de quem nunca perdera o equilíbrio. Sentiu-se um pouco tonto. Sentou-se. Se continuasse de pé, cairia de joelhos, numa humildade que não reconhecia em si.
Respirou fundo. Entregou-se…. não mais ao sofrimento, nem ao desânimo, nem a saudade, apenas à certeza de que não podia controlar tudo. De cabeça baixa, quis orar. Não sabia quais palavras seriam as mais adequadas, então apenas as sentiu. Assim em silêncio, orou a um Deus que nem sabia como era, um Deus só seu, que talvez nem existisse, ou nunca o ouvisse…
Quem o visse daquela maneira, por aquele ângulo, juraria que neste momento, de suas costas soltavam-se quase transparentes asas, que se abriam. Após alguns minutos, respirou fundo e levantou-se, como se estivesse mais leve. Uma inspiração o animou. Já sabia o que fazer… não podia controlar o presente, nem os fatos, nem o medo dela, nem curá-la, mas podia levar-lhe uma idéia, um sonho pelo qual lutar, um sonho que a faria desejar também ter asas para o alcançar, algo para crer em si. Um desejo, uma luz. Se ela não tivesse asas, este desejo certamente a sustentaria, para além de seus limites!
E assim, aquele homem foi em direção da mulher e como um pássaro ou anjo, emprestou-lhe suas asas, porque ela antes, já fizera isto com ele, num dia, não muito distante daquele…












Nossa que lindo!
seu texto é muito delicado
Parabéns!
Bom dia, Roberta. Muito obrigada.
abraço e bom final de semana!
Vera, boa tarde. Concordo em absoluto com o comentário da Roberta. A delicadeza das palavras e dos conceitos. A forma como, consigo como autora, os sentimentos e as emoções são apresentados não me deixa outra alternativa que não seja a de me assumir como seu incondicional admirador. A importância da dádiva, da abdicação, até como factor de equilíbrio em relação ao desejo, ao egoísmo, está aqui talentosamente representada. Mulheres e homens, em graça ou nem por isso, mas sempre com a possibilidade de o sermos por inteiro em relação a nós próprios e aos que dizemos amar. Um caloroso abraço e um bom fim de semana para si e para os seus.
José, me trouxe alegria ter em si um admirador dos meus escritos. Obrigada por isto. E lhe conto que imaginei este conto, quando lembrava, com admiração e respeito, de um querido amigo meu que passou por algo semelhante há pouco tempo. A vida, em momentos difíceis também nos mostra beleza, não é mesmo?
Abraço e votos iguais para si.
Vera Alvarenga, lindo escrito.
Um fluxo doce de palavras que se entranham e, sem que o percebamos, também criamos asas.
Essa noite, imagino que poderei sonhar de novo que estou voando…
Ah!Graças a Deus! Me emocionarei por saber que é verdadeiro este momento em que, qualquer um de nós possa deixar armaduras de lado e, sentindo-se leve novamente, possa voar… e voando, às vezes, podemos até ouvir próximo a nós, o bater de outras asas, e teremos companhia em nosso vôo – uma felicidade extra. Pois sonhe e voe!
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Sonhei e acredito no voo compartilhado….fuiiiii
Se sonhar já é bom, imagine um voo compartilhado!
Oi Vera!
Belo, muito belo.
Adorei esta parte: Respirou fundo. Entregou-se…. não mais ao sofrimento, nem ao desânimo, nem a saudade, apenas à certeza de que não podia controlar tudo. De cabeça baixa, quis orar. Não sabia quais palavras seriam as mais adequadas, então apenas as sentiu. Assim em silêncio, orou a um Deus que nem sabia como era, um Deus só seu, que talvez nem existisse, ou nunca o ouvisse…
Parabéns.
Beijo.
Obrigada Beth! Há momentos que só nos resta orar, e a gente nem sabe se Ele ouvirá, mas é nestes momentos que a gente sente que a única força talvez só nos venha mesmo deste ato humilde de pedir ajuda.. talvez Ele nos escute.
Um grande abraço a você e uma boa semana!
Beijo.