Só Contos

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O medo de errar

Perfeição

Por Ivani Medina

Não é novidade para ninguém que o medo, quando bem dosado, é um dos parceiros mais importantes da vida humana. Quando é de menos mata. Quando é demais paralisa. O instinto de sobrevivência o disponibiliza e a inteligência adestrada pela experiência o gerencia entre esses extremos. A grande maioria das pessoas está situada, mais ou menos, ao centro dessa escala. O problema é nem sempre as coisas são tão “técnicas” assim.

Lucinda está incluída no segundo caso: medo demais. O interessante é que esse medo não se generaliza, ao contrário, se particulariza em determinadas áreas que respondem pelo comportamento humano. Ela talvez tivesse coragem de enfrentar um leão, mas morre de medo de errar. Na festa de conclusão do ensino fundamental ela participou de um grupo de meninas que se apresentou dançando jazz. Ensaiava o dia inteiro por conta própria, para decorar a coreografia e executá-la com o máximo de perfeição. Até aí tudo bem, não fosse a ansiedade estampada em seus olhos.

Aquilo que deveria ser uma satisfação havia se tornado um sofrimento e a mãe dela já havia percebido. Procurou motivos para entender o estado emocional da filha sem nada encontrar. Era mãe exigente, mas não era louca. Mãe que não é exigente com os filhos não devia ser mãe. Ficou preocupada porque Lucinda gostava de dança e não queria desistir, nem conseguia se tranquilizar. A cada dia que a apresentação se aproximava, a ansiedade exagerada da menina aumentava.

─ Deixe disso, minha filha. Muitas meninas vão errar. Vocês não são bailarinas. É só para divertir todo mundo, especialmente vocês. Na plateia somente pais, irmãos, parentes em geral e amigos. Ora, pare com isso! Para continuar com essa aflição desmedida, acho melhor você desistir.

Lucinda chorava como se estivesse diante do cadafalso. O exagero da filha tornou-se preocupante. A responsabilidade da menina com os estudos, a preocupação com as boas notas que deixavam aquela mãe tão satisfeita, ganharam uma preocupante possibilidade. A mãe redobrou a atenção com a filha. Era somente uma criança e um comportamento neurótico não lhe poderia ser atribuído porque ela, além de não ter experiência de vida, não tinha em casa nada que justificasse aquilo. Era mesmo dela.

Tornou-se uma linda moça e formou-se em letras. O lado bom dessa estranheza era que ela impressionava demais por ser uma pessoa agradável, boa de lidar e extremante criteriosa. As limitações do mercado de trabalho a conduziram inicialmente ao ofício de revisora. Era o que havia no setor que a interessava. Foi à luta. No final das tantas entrevistas, estava sendo disputada por duas editoras. Acabou seduzida pelo melhor salário, evidentemente, recebendo agrados e um almoço de boas-vindas. Tudo ia melhor do que a encomenda, até que alguns poucos dias depois de completado um mês de trabalho, Lucinda cometeu um erro sério e foi demitida.

Caiu em depressão por algum tempo, mas se restabeleceu com o carinho de casa e das amigas. Ninguém se conformava que aquilo tivesse acontecido justamete com ela. Mas que azar! “Errar é humano” muito se diz e, nesse sentido, uns são muito mais humanos do outros. Porém, Lucinda chegava ser desumana consigo mesma, levando trabalho para casa, e ainda assim errou. Daquele limão ela teria que fazer uma refrescante e deliciosa limonada, como dizem os norte-americanos, para matar a sua sede por uma definitiva conquista pessoal. Deixar-se azedar por um contratempo não fazia parte do perfil da outrora menina que não fugiu da sua apresentação de bailarina improvisada de jazz. Dançou muito bem e foi muito aplaudida junto com as colegas. Agora era dançar a vida.

Quem já não experimentou uma resposta tão desagradável do destino? Os efeitos são os mesmos, o que muda é a intensidade da repercussão. Algo que uns tiram de letra, pode ser desastroso para outros. No caso de Lucinda o desastre nasceu com ela. Por isso, ela faz terapia de vidas passadas para ver se descobre algo que a livre dessa angústia fantasma, como acontece nos filmes. Até o momento não obteve o resultado esperado, mas continua tentando. Talvez ela acabe se convencendo do que muitos há muito tempo estão convencidos: o erro só ensina quando se quer aprender. Não temê-lo como um professor é essencial ao aprendizado. Depois que aprendemos bem ou mal nossas lições, é que nos damos conta de que os nossos mestres sempre foram os nossos melhores amigos.

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11 pensamentos em “O medo de errar

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  3. Sérgio Werneck de Figueiredo em disse:

    Isso mesmo, Ivani Medina.
    Dizem que errar é humano, mas empacar por um erro é sinal de terapia urgente. Ou logo a coisa vira fobia e o valor do tratamento trará outras.
    Corre-se risco até dormindo. Que o medo seja um aliado da descontração e da vontade de encarar a vida.

  4. É isso aí, Sergio. Obrigado por mais este comentário. Forte abraço.

  5. agradeço também à Luísa, Letitia e Charles pela leitura e acatamento do texto.
    Grande abraço a todos.

  6. Pois eu, Ivani, tenho vários pequenos medos que funcionam como uma conversa de mim para comigo mesma que acaba por me fazer conhecer-me melhor. Quanto aos grandes… me deparo com eles de vez em quando, e cedo ou tarde, acabo, como a bailarina, enfrentando. O tipo de medo que acho pior mesmo, é aquele que quase não se mostra, não tem coragem ele também, de aparecer cara a cara… este sim, fica sem nome, um medo de não sei bem que, que muitos não querem nem saber, mas que acaba por impedir nossos passos em direção talvez de boas mudanças. E muitos o sentem, embora tentem escondê-lo por trás de uma atitude supostamente destemida e notoriamente repetitiva. Saber até onde arriscar…eis a questão..rs…
    Abraço,

  7. Ivani Medina em disse:

    Obrigado, Charles
    Grande abraço.

  8. Ivani Medina em disse:

    Obrigado Letitia, grande abraço.

  9. Ivani Medina em disse:

    Obrigado, Luísa. Beijos.

  10. Ivani Medina em disse:

    Olá, Segio. Obrigado pela sua presnça, sempre bem marcada com seus comentários oportunos.
    Forte abraço.

  11. Ivani Medina em disse:

    Poi, é, Vera. quem não se confessa com medos é porque tem medo de confessar rsrsrs. Não sou ilustrado didáticamente no assunto, mas apreciei o seu comentário. Muito obrigado e um grande abraço.

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