Só Contos

Apenas Mais um Arquivo de Palavras

O Quarto

O Quarto, pintura de Van Gogh, Arles 1889

Por Camila Capps

Uma luz amarelada cintilava nas quatro paredes daquele aposento. Os poucos móveis ganhavam sombras de figuras engraçadas que a cada minuto transformavam-se em seus significados.

Não era um local amplo, nem tampouco acolhedor. Apenas era, seria, ou estava exatamente como ele reconhecia.

Distinguia cada mancha, cada risco, cada pontinha de sangue gravada por um pernilongo esmagado.

O silêncio insistia em se acomodar ao seu lado e a cada instante tornava-se mais espaçoso, como se tentasse tomar-lhe o ar, aprisioná-lo contra a parede.

Gostava de pensar nas coisas que poderiam estar acontecendo diante da porta, mas ao se deparar com a rachadura já camuflada pelos anos na madeira antiga, só conseguia retomar as memórias que, por ela, eram culpadas.

Toda vez que se movia, na tentativa de encontrar uma posição melhor, escutava o ranger da cama, pensava em tentar algo para amenizá-lo, mas sabia que nada faria, era apenas mais uma etapa das já conhecidas por que passaria.

Uma camada fina de poeira dançava suavemente no ar, lançada pelo ajeitar do cobertor, acentuando ainda mais o pensamento que nutria por si mesmo: por que diabos não o coloquei para tomar sol?

Sabia de cor quantas viradas seriam necessárias para que seu corpo sentisse o incômodo dos “sês”, a gargalhada triunfal do medo sobre suas derrotas. E como um fogo flamejante, o estrado podre fazia sentir-se presente através da fina camada de espuma que ainda restava no colchão.

Inspirando como quem espera o último suspiro, levantava-se em um pulo espalhafatoso. Mãos ávidas ao encontro da jarra que guardava em si um pouco de água, ainda que morna e com gosto acentuado de cloro, trazia-lhe um certo alívio, parecia lavar as emoções por um segundo e transportá-lo a um vazio reconfortante, quase capaz de brindá-lo com o tão perseguido sono.

Mas eis que o leve piscar da luz, modificava as sombras e pintava o quadro da realidade bem à frente de seus olhos.

Tentava buscar abrigo aninhando-se na poltrona tão grudada à parede oposta à cama, como se mesmo o móvel tentasse uma fuga sorrateira.

Suas mãos trêmulas coçavam os olhos tingidos por feias olheiras, deslizavam sobre os ossos da face, buscavam-se sobre o abdômen, continham-se por segundos, mas bem sabia ele o que procuravam.

Ao seu lado, jogados em uma caixa de sapato estavam alguns retratos. Momentos de sua vida imortalizados por um raio de luz. Os mais antigos molduravam sorrisos cheios de confiança e vivacidade, mas ele não conseguia encontrar o ponto crucial. Quando os risos largos foram ganhando tons amarelados, quando a vivacidade cedeu lugar à dúvida, quando as outras faces que sorriam junto, tão conhecidas, companheiras, amadas, seguiram rumo ao caminho do esquecimento.

Não chorava ao encarar as fotografias, nem conseguia reconhecer-se nelas. Sabia que aquele momento seria sempre o mesmo, como em um ritual torturante onde não há fim, apenas um recomeço.

Abandonava a poltrona com o mesmo desdém que sentia pela sua falta de atitude diante do cobertor: Como não havia escondido de si mesmo fotos que lhe cutucavam a alma?

Alguns poucos livros encontravam-se em uma prateleira improvisada ao lado da poltrona. Organizava seus títulos com um critério diferenciado. À frente estavam aqueles que havia lido, porém não era capaz de recordar o final. Ao meio estavam aqueles cujos títulos tão interessantes o haviam intrigado e por isso não tinha coragem de desfazer o mistério. Ao fundo encontravam-se os que mais o faziam sentir-se mal, todos aqueles que havia começado, mas nunca terminara.

As emoções seguiam de forma idêntica pelas noites a fio. E a essa altura provocavam um arrepio em sua espinha, que parecia transportar seu corpo a uma câmara fria. Revirava as gavetas soltas e quebradas de sua cômoda, na tentativa de encontrar algo capaz de aquecê-lo, mas no fundo sabia que apenas um tecido não poderia derreter o gélido toque da frustração. Ainda assim, resgatava lá do fundo qualquer agasalho que pudesse lhe trazer um pouco de calor.

Porém naquela noite, suas mãos não lhe presentearam com apenas um moletom, mas sim uma velha blusa de lã, que trazia no cinza desbotado um “A” bordado em azul marinho. Já nem lembrava o quanto era apegado a ela ou, melhor dizendo, ao tempo a que pertencia. Quando o ato de dormir consistia em apenas cerrar os olhos e viajar em belos e psicodélicos sonhos. Quando não havia poeira em seu cobertor, nem retratos em caixas de sapato. Quando os livros eram apenas livros e nada mais. Quando a cômoda mantinha-se intacta. Quando a vida ainda existia.

Aquele “A” o incomodava, parecia dilacerar-lhe o peito enquanto guardava em si um sorriso cínico, delineado através da tênue curvatura que unia suas retas congruentes. Não conseguia compreender o motivo de tamanha amargura. Era apenas um presente que havia ganhado há anos passados.

E então, a sombra de um inseto sobrevoando a letra o fez entender. Com um misto de tristeza, solidão e repulsa, constatou que já não podia nem ao menos reconhecer o símbolo que representava a primeira letra de seu nome.

Seu corpo estático começava a ganhar movimentos torpes, a mão ainda agarrava a blusa e teve a nítida impressão de que as paredes pareciam estreitar-se. A poltrona já não tentava a fuga, agia em apoio. Todo o quarto parecia querer pôr fim ao vácuo da inexistência que o preenchia. Apenas a janela, a qual nunca dera atenção, mantinha-se austera, impassível, quase amiga, definitivamente convidativa.

Seguiu cambaleante até seu abraço e em uma fração de segundos, a brisa do fim da noite começou a acariciar-lhe levemente o rosto, tocando seu pescoço, o peito, a cintura, até envolver-lhe todo na vertigem alucinante da queda.

Um baque surdo agiu como navalha, rasgando o silêncio. Longe daquele aposento, iluminado pelos primeiros raios de sol e na tentativa de corresponder ao escárnio do “A”, um singelo sorriso pintava-se em seus lábios. Suas pálpebras encontraram-se lentamente, sem a menor pressa.

Pôde enfim adormecer.

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13 thoughts on “O Quarto

  1. Bem vinda ao Só Contos, Camila!

    Muito obrigada por fazer parte deste pequeno grupo e parabéns pelo excelente conto! Fiquei deliciada, pois este é, digamos, um dos estilos de narrativa que me deixa empolgada, com vontade de explorar os pormenores dos pormenores.

    Grande abraço

    • Luísa, obrigada pelas palavras e pela oportunidade de postar meu conto aqui no Só Contos. É realmente um experiência revitalizante poder trocar idéias, palavras e pensamentos com pessoas também apaixonadas pelas letras.
      Abraços,
      Camila.

  2. Pingback: O Quarto | Contos e Crónicas | Scoop.it

  3. Camila

    Que bom que você veio! Poxa, que sono difícil. A preciosidade das suas narrativas contemplarão ainda mais os visitantes do Só Contos. Agora em diante dormirei mais feliz rsrsrs.

    • Ivani, muito obrigada pelo incentivo. Realmente, um sono muito difícil. Acredito que todos que já passaram por noites de insônia, entendem bem o desespero da personagem.rsrsrs….
      Abraços,
      Camila.

  4. Sérgio Werneck de Figueiredo on said:

    Uma pintura de Van Gogh e uma pintura de conto, uma vida que tanto faz como tanto fez, ter ou não ter uma orelha a menos naquele corpo exaurido, tal qual o pintor em seu fim.
    Quem sabe ele também tenha pintado um quadro de seu quarto e hoje tal pintura não se destaque na casa de algum colecionador?
    Uma solidão depressiva em que nada mais importa, que chega ao esquecimento do significado da primeira letra de seu próprio nome, uma réstia que ainda conforma vida, ao menos como sombra mutante na parede de seu quarto.
    Quem sabe sua queda naquele fim de noite, não seja sua forma solitária e ignorada de se despedir daquela nesga de vida, para ser apenas mais uma pálida sombra, ao primeiro raio de sol da manhã?

  5. nossa! adorei…viajo nos contos publicados nesse blog….realmente, esse foi mais um, texto forte que prende a nossa atenção e faz com que reflitamos sobre todo um contexto….abçs

    • Olá Camila, boa tarde. Seja muito bem vinda. Só pode ser muito bem vinda
      alguém que logo no seu primeiro trabalho nos chama a atenção para uma
      questão que me parece muito importante: saber o que fazer com o amor será
      quase uma brincadeira de crianças, saber o que fazer na sua ausência, talvez
      até na sua orfandade, possivelmente será um desafio para adultos. Gostei
      imenso. muito obrigado e os meus mais sinceros parabéns.

  6. Explêndido, perfeito, escrito com maestria!
    Eu amei o conto repleto de ricos detalhes que mostram o quão angustiante e desesperador e, ao mesmo tempo, emotivo e engraçado, talvez até doce, pode ser as horas de uma insônia.
    Eu não sofro disso, deito e durmo como uma pedra que jaz no meio do caminho de alguma estrada por aí, inerte rs. Muito raramente perco o sono. No entanto, para quem passa por isso todas as noites deve ser um problema sério.
    De qualquer modo, seu conto está escrito de uma forma que atrai a atenção do leitor até a última palavra.
    Parabéns!

    Sandra Franzoso

  7. Fiquei presa ao conto e àquele quarto como ele próprio parecia estar preso à sua depressão e impotência em preencher um vazio incômodo demais para suas noites e sua vida. Finalmente parece que conseguiu decidir-se e juntar forças para uma iniciativa. E parece que, bastam poucos segundos desta, para transformar uma vida, não é?
    Abraço, Vera.

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