Só Contos

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Talento Assassino

Anseios de liberdade

 Por Ivani Medina

Ele ganhava muito bem e tinha talento para multiplicar o que amealhava. Era um tipo de gênio das finanças. Ela havia se formado em química, mas teve sua vida profissional boicotada pelo marido possessivo, talvez insegurança por ter o pênis pequeno. Na cabeça dele, se dinheiro não era problema para que ela trabalhar?

Edgard com seu pragmatismo pouco ilustrado não percebia a vida além dos seus interesses imediatos. Sua inteligência tinha características bem definidas, mas estupidamente ele não se interessava em desenvolver uma visão periférica mais enriquecedora. Era essa a sua maior pobreza, pois a malícia para os negócios não se alargava ao restante, como poderia e deveria, inclusive, como um instrumento de defesa.

Angelina havia se acomodado de início àquela vidinha doméstica e as concessões do marido que não a satisfaziam mais. As amigas a invejavam daquele vidâo que ela levava, pois a maioria delas, das que não trabalhavam, não tinham maridos possessivos e nem tão abonados. Algumas chegavam a pensar que se não voltassem para casa o marido ficaria satisfeito por diminuir as despesas. Os cartões de crédito de Angelina não passavam pelo pente fino daqueles maridos sempre preocupados com o valor das faturas no final do mês.

Das amigas que seguiram uma profissão a maioria reclamava dos baixos salários e dos anos de estudo e dedicação que pouco lhes serviu. Somente uma se dizia satisfeita ou queria parecer assim. Satisfação plena é algo que está para ser encontrado, especialmente pelas mulheres. Ao se concentrar tanto nas insatisfações, estas se avolumam de tal maneira que fazem sombra aos pequenos prazeres da preservação.

O erro fatal de Edgard, além de ter-se casado com ela, foi não permitir que sua mulher se experimentasse na vida comum. Angelina era do tipo mulher sonsa e levou o tonto do marido na palma da mão até encontrar um saída para os seus desejos. Eventualmente eles discutiam, mas ela sempre teve o cuidado de manter o limite e o controle de ambos. Era importante que Edgard estivesse sempre satisfeito com o baixo nível das próprias exigências. Ela não falhava como dona de casa porque ainda não tinham filhos para se justificar. Ele queria muito tê-los, mas Angelina sempre protelava com a alegação de aproveitarem mais um pouco a vida. Logo ela inventava uma viagem divertida e inesquecível. Edgard sempre caía nos seus engodos.

Angelina nasceu numa família de classe média baixa e com muito sacrifício seus pais conseguiram formar seus quatro filhos. O patrimônio daquela família consistia num único apartamento no subúrbio. As reclamações das amigas menos afortunadas ela conhecia bem, pois a vida de limitações na adolescência ainda estava viva nas suas lembranças. Seu casamento havia sido mesmo uma loteria premiada. Na privacidade dos seus pensamentos imaginava como aquilo tudo poderia ser ainda muito melhor, não fosse o Edgard. Dissimulada que era, por vezes, sentia vontade de esganar o marido e desfrutar sozinha dos seus bens.

O casal havia aceitado um convite de amigos para um fim de semana numa agradável cidade serrana. Ela desmarcou o passeio porque Edgard estava resfriado e, sempre solícita com um copo de vitamina C efervescente a paparicar o marido que adorava aquilo, o convenceu que o mais indicado seria ficarem em casa assistindo os filmes que ela providenciou. Naquela manhã de sábado um cheirinho vindo da cozinha fez Edgard salivar de felicidade – camarão. Angelina pediu à cozinheira que caprichasse no prato predileto do marido e na sua sobremesa mais apreciada. Ele sorria feito um bobo agradecido à esposa dedicada.

Antes de iniciar o almoço ela pediu que ele ingerisse compridos de vitamina C pura com um copo da efervescente. Disse-lhe que era para mandar logo aquele resfriado chato embora, porque tinha planos. Edgard fez o que a esposa sugeriu sem pestanejar. Em seguida se empanzinou do delicioso prato de camarão, glutão que era. Ela insistia para que ele comesse mais e mais.

─ Foi feito só para você, e este prato só é bom fresquinho.

Infelizmente, depois daqueles momentos agradáveis e aparentemente felizes, os primeiros sinais de hemorragia surgiram nele.

─ Angelina, meu amor estou me sentindo muito mal. Ajude-me, ajude-me!

─ Calma, meu amor. Já vai passar.

Pelo menos, Edgard não devia ter refreado o talento de química da sua esposa. Quem sabe ela o tivesse canalizado para algo mais saudável?

A cozinheira e a empregada foram dispensadas logo após a finalização do preparo do almoço. Para se garantir ainda mais, Angelina, esperou o suficiente para impossibilitar qualquer tentativa de salvamento, para depois então pedir socorro. Quando ele percebeu o que estava se passando era tarde demais. Havia uma frieza cruel no olhar daquela mulher que na verdade Edgard jamais conheceu. Na lucidez sua de moribundo ele só conseguiu dizer.

─ Você vai ver. Você vai ver…

─ Mas você não, meu querido.

Camarão “casca mole” contém alta concentração de compostos de 5-potássio- arsênico (óxido arsênico, As2 O5). Por si só, não causa problema algum ao organismo. Porém, a sua reação química ao se juntar a vitamina C o transforma em ADB anidrido arsênico (o popular Arsênico, As2 O3).

O que não faltava no enterro de Edgard eram testemunhas do amor e da dedicação daquela jovem e bela viúva, que perdeu o marido num raro e desconhecido acidente alimentar. Mas a claridade intensa do lindo Sol de domingo a despertou. Toda aquela história boba de arsênico de camarão e vitamina C, das muitas que surgem na internet, não correspondia à realidade. Mas Angelina desejou profundamente que fosse real, quando se viu acorda novamente ao lado do já não falecido Edgard.

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11 thoughts on “Talento Assassino

  1. Pingback: Ver! | Blog | Talento Assassino

  2. Viche …. que medo ….kkkkk

  3. Quando nos sentimos presos e limitados na nossa liberdade, temos tendência a não assumir que foram exatamente as nossas escolhas que nos fazem infelizes… depois… sabe-se lá o que a mente humana é capaz de idealizar, para nos libertarmos e ainda ficarmos a ganhar!

  4. Sérgio Werneck de Figueiredo on said:

    A necessidade de liberdade sempre levou às revoltas, guerras e crimes.
    O crime de assassinato não se concretizará, por que Angelina – nome sugestivo e muito próprio – tem apenas forças para encená-lo ou sonhá-lo, assim como faz com sua própria vida.
    No entanto, aproveitando a revogação do crime de adultério, talvez ela encene uma bela viagem, com um amante, regada ao dinheiro de Edgard e, por fim, relaxados e livres, um belo prato de camarão à beira mar, sem vitamina C, é claro.
    Meus parabéns por mais essa magnetizante narrativa, Ivan Medina.

  5. Muito interessante o seu conto, principalmente a reação química entre o camarão e a vitamina C! Esse plot da mulher enfadada com o casamento me lembra muito Madame Bovary, só que nesse livro, quem se mata é a esposa.

    Parabéns!

  6. Joselito

    Mais uma vez, agradeço a sua leitura e comentário. Abraço.

  7. Letitita

    Perfeito. Obrigado pelo seu comentário.
    Abraços.

  8. Sergio

    Obrigado pelo magnetizante e pela sua constância aqui.
    Forte abraço.

  9. Roberto

    Muito obrigado pela sua leitura e comentário.
    Abraço.

  10. Muito bom, em situações que nos privamos da liberdade a mente humana é capaz de arquitetar as maiores barbaridades. Me fez lembrar muito um livro do Veríssimo, chamado “Gula – O Clube dos Anjos”, onde um grupo de amigo vai morrendo após comer seu prato preferido. De certa forma a mensagem do livro é parecida com seu conto, sobre escolhas (ou talvez a falta delas) na vida de cada um, mas eles escolheram outro caminho.

  11. Olá, Camila Caps

    Não conhecia esse livro. Deve ser muito bom. Assisti um filme francês sobre o mesmo tema, no qual os personagens suicidam-se de tanto comer. Era um pacto. Sempre as escolhas, como comentou a Letitia. Obrigado pela honra.Sou seu fã.

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