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Ah, dei cuzinho

Nome

Por Ivani Medina

Este título é para chamar atenção para algo muito mais sério do que possa estar sugerindo. Refere-se a uma tremenda crueldade da inocência de quem é bom. Tremenda pela extensão; cruel pela dor do grande mal que causa; inocente porque não havia a menor intenção de causá-la. O pior de tudo é que se fez e se faz por amor. Você acredita?

Depois da certeza da morte, só mesmo a certeza do próprio nome pode desagradar a alguém com o peso de uma nefasta predestinação. Algo que lhe foi imposto e o acompanhará até depois do túmulo sem que, ao menos, lhe tenham pedido opinião. Hoje isso já mudou muito e os cartórios se recusam registrar verdadeiras imbecilidades que poderiam humilhar alguém ao extremo para resto dos seus dias. Nos casos extremos, é bom que se diga, porque outras imbecilidades ainda são permitidas e acontecem nos cartórios diariamente causando o mesmo efeito. A imaturidade cultural do nosso povo, pela baixa autoestima de ser brasileiro, ainda permite isto.

A desgraça é que geralmente os pais são jovens e inexperientes demais para assumirem uma responsabilidade tão grande ou maior do que geração de um filho (a). Sorte tiveram aqueles cujos pais se valeram do mais convencional e lhe puseram nomes como João ou Maria, Peri ou Ceci. Infelizes aqueles que tiveram pais “criativos”. A criatividade popular é um imenso perigo para quem nasce. Pouco importa se esse mal não exista somente aqui.

Mudar o próprio nome é algo complicado que deixa uma feia cicatriz. É impossível desexistir alguém, do mesmo modo que se apagar da lembrança o infeliz e vergonhoso chamamento. Das caçoadas na escola, das chacotas na rua e em toda parte os danos psicológicos se instalam e permanecem de alguma maneira. Uma verdadeira desgraça do destino criada pela afeição. Porque será que não pensam nisso ao registrar o nascimento de uma criança? Porque será que não se ensina às crianças nas escolas a seriedade de se nominar um filho (a)?

Atualmente é comum se encontrar, aqui no Brasil, formas ridículas de aportuguesamento de nomes da língua inglesa. Todavia, como já foi dito, no passado foi bem pior. Antigamente, as divisões entre as classes sociais eram marcadas por gostos e com gosto. Sentir-se distante dos mais humildes era uma questão de honra. O falar e escrever “difícil” eram uma forma de desprezo ao negro boçal e aos não brancos em geral, que não tinham acesso aos estudos. Assim eles entendiam pouco ou quase nada de uma sociedade que os queria escravos, com salários de miséria só para constar.

No entanto, os nomes próprios não se prendiam, como hoje, ao modismo estrangeiro especificamente, mas ao modismo cultural vigente na Europa que era uma forma eficiente de exclusão. Os nomes gregos sugeriam certo charme intelectual junto às classes medias alta. Por exemplo, nomes como Sinfronio (que pensa ou sente como os outros), Ambrósio (imortal), hoje, nessa vergonha de ser brasileiro, deram lugar a Maicom e a Uília junto às classes baixas.

Outra forma de se infelicitar alguém, também com muita eficiência, é a utilização de nomes compostos com parte dos nomes dos pais. É o caso do nosso personagem título, por incrível que pareça. Reza a lenda familiar que o avô dele, lendo Seleções do Reader’s Digest, numa daquelas praias nordestinas, deparou com um texto que deu origem a nominável tragédia naquela família. O texto se referia ao Kaiser alemão Guilherme II, mas não foi o nome Guilherme que impressionou o leitor. Foi o título: Kaiser. Os alemães sempre foram grandes admiradores dos antigos romanos e Hitler deixou isto mais do que evidente. Kaiser é um título monárquico soberano do mais alto nível que vem do latim Cæsar, por empréstimo do nome do ditador romano Júlio César. Teve origem no Império Alemão (Deutsches Reich) que existiu numa região da atual Alemanha desde 1871.

Encantado com a história e com a mulher “buchuda”, pronta para parir, o avô dele decidiu naquele instante que o nome do rebento, no caso o seu pai, seria Kaiser. Se mulher, Kaísa. Nasceu Kaiser em meio a Raimundos e Nonatos da vizinhança. O bebê cresceu, tornou-se um rapaz saudável, forte, de boa índole e veio tentar a vida no Rio de Janeiro. Depois de muita luta Kaiser conseguiu se estabilizar com méritos, depois de conhecer Adeilde (A que vem da nobreza), por coincidência nome de origem alemã.

Para comemorar a vitoriosa união de Kaiser e Adeilde nasceu uma linda menina que recebeu como nome um pedacinho de cada nome de seus pais: ”Adei”, da mãe e “Ka”, do pai. Adeika era saudável e linda. Depois de dois anos e alguns meses do nascimento de Adeika nasceu o menino ansiado por Kaiser. Adivinhe qual foi o nome que deram a ele? Adeiko, claro! A criatividade popular tem suas pausas e, ao menos, o menino livrou-se de Kadeio, por exemplo, mais gritante.

Assim chegou ao mundo mais uma vítima do mau-gosto dos pais sem saber o que lhe esperava. Como ironia pouca é bobagem, justamente aquela forma usualmente carinhosa de se chamar os filhos pelo diminutivo foi o grande problema. De Adeikinho para Adeikozinho foi um pulo. De Adeikozinho para Deicozinho não precisou pular nada. Daí o inevitável “Ah, dei cuzinho”, da parte da inclemente molecada, que lhe deixou cicatrizes no rosto e na alma. Era só para celebrar a união dos seus pais, encimada pelos nascimentos da irmã e do dele.

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14 pensamentos em “Ah, dei cuzinho

  1. Quem lê o título nem imagina o drama! Pobre criança, apesar da inocência e simplicidade dos pais, não se safou das maléficas consequências da criatividade da molecada. É por isto que sorrio, quando alguém me diz ( como está na moda se dizer) que cada um é o único responsável por sua felicidade! Isto, penso, é simplificar muito as coisas. Pois até de sorte carecemos – sorte para não termos pais e amiguinhos “tão criativos” a respeito de nosso nome, sorte para não nascermos em meio à guerras ou num ambiente que já desde o berço nos tire tantas oportunidades…
    De qualquer modo, você foi criativo e bem humorado ao falar do assunto. É um dom, transformar a má sorte em algo que pode ter um efeito positivo, como tem este teu escrito. Parabéns. Muito bom dia pra você, Ivani. Abraço,
    Vera.

  2. Pois é, Vera

    A questão do nome é muito séria. Geralmente, a vida que vai chegar não é percebida como outra independente, num mundo caótico e não precisará de mais dificuldades para cumprir determinismos idiotas. Tem gente que acredita que antes do nascimento escolhemos o nosso próprio nome e a nossa própria vida. Pqp, estávamos todos de porre? Deve ser. A sua observação é pra lá de procedente. Até parece que que nascemos sabendo de tudo, de como lidar com tudo, verdadeiros gênios que não sabem que sabem. Ora bolas! Gostei muito do seu comentário.
    Obrigado e um grande abraço.
    Um ótimo dia.

  3. Sérgio Werneck de Figueiredo em disse:

    Tive um colega, cujos próprios pais o apelidaram de Nico.
    Não havia um dia que não se escutasse a frase irritante, que o deixava possesso: “Qualquer coisa, eu comuNico…”
    Essa é a ponta de um fio imenso de uma meada antropológico social deveras atraente.
    Seu comentário sobre desigualdades sociais propositadas e a dilapidação da autoestima de muitos do povo brasileiro leva a consequências catastróficas e às curiosas reações e surpresas que sempre marcaram nossa história.
    No entanto, nada é tão grave quanto a displicência, a falta de responsabilidade e de respeito à geração e educação de uma criança.
    Há que se reinventar o “santo do pau oco” e proteger a integridade do filho, como se fosse o ouro que não pode fazer parte do quinto, uma riqueza indivisível e preservada dos açoites do cotidiano de um povo sofrido. Esse será o grande segredo que garantirá a esperança da dignidade restante desses pais descrentes e desacreditados, um futuro carretel colorido, ao invés dessa meada com jeito de estopa usada.

  4. Olá Sergio
    Coincidentemente, meu apelido em casa era Nico, mas só em casa e nunca me trouxe constrangimento algum. O que eu detesto mesmo é o meu nome. Com nove anos de idade fui matriculado numa escola pública na Tijuca. Eu e minha irmã de seis anos que se iniciava. Naquela época as crianças formavam, saudavam a bandeira nacional e ouviam uns comentários ou aconselhamentos da diretora antes de entrarem para as aulas. Quando chegava algum aluno novo ele era apresentado a toda escola nessa oportunidade. A entrada principal do prédio era servida por duas escadas curvas que terminavam numa espécie de sacada, a uns dois metros do piso do pátio. A diretora pegou o microfone e anunciou, lendo um papel:
    ─ Hoje, temos a satisfação de receber duas novas coleguinhas da Ilha do Governador: a Ivani e a Ivone.
    Foi uma gargalhada só quando dei um passo à frente lá de cima, e a vista de todos. Tive que brigar o resto do ano e até hoje isso me constrange pela imbecilidade uma nominação idiota. A estória que conto é real e aproveitei-a para desabafar um pouco. rsrsrs É um mal que não tem cura.
    Forte abraço.

  5. Excelente texto. Apesar de não ter nunca sofrido algum revés por causa de meu nome, conheci algumas pessoas com nomes que, por causa da busca de seus pais em prol de originalidade, sofreram e sofrem até hoje com isso. Isso realmente pode estragar o que, considero, seja o primeiro cartão de visitas ao se lembrar de alguém.

    Grande abraço. 8)

  6. Bullying não se sofre apenas por nomes, mas por qualquer característica que fuja aos padrões estabelecidos. Quem os estabeleceu? Obsessão essa de ter que policiar os padrões, de ter que ser sob medida. Nome comum, belo, que soe bem; pênis reto e de tamanho aprpriado; hímen reposto e como era antes das defloração…affff…

    Sociedade medíocre essa, que não se conforma com o gênio, nem com uma simples homenagem póstuma em forma de nome.

    Belo relato!

  7. Pensador Louco

    Muito obrigado pela leitura e comentário. Pois é, as pessoas não se tocam que nome é para toda a vida. Precisamos falar disso também.
    Abraço.

  8. Ebrael

    Obrigado pela sua leitura e comentário.
    Abraço.

  9. Valéria em disse:

    Olá Ivani… infelizmente ainda hoje a gente vê muitas vítimas de pais criativos. Mas realmente já foi bem pior. Tenho uma amigo que tem um livro de nomes estranhos pelo mundo afora. Pode apostar que não é só aqui no Brasil que isto acontece, hehehehe
    Seu texto foi super bem escrito, e até nos mostra que além da “criatividade” dos pais ainda se tem que esbarrar na “maldade” dos amigos da primeira infância. Hehehehe
    Beijo no coração

  10. Muito bom o texto, é uma questão de desinformação ou estupidez expor os filhos ao ridículo. Nomes como Hittler, Lucifer, vulgo Satanás e daí por diante, mesmo que consiga anular na justiça o psico ficará afetado como fora bem descrito.

  11. Olá Valéria
    Realmente, existem muitas anedotas a respeito de nomes estranhos, como o conhecido Um Dois Três de Oliveira Quatro. Você tem razão, esse desastre é mundial. Muito obrigado pelo seu comentário e retribuo a afeição.

  12. Olá Carlos

    Você foi na mosca. A mudança de nome não apaga o que se viveu, além do que é muito estranho ao próprio psiquismo uma mudança dessas. O estrago está feito.
    Obrigado pelo cometário e um abraço.

  13. Olá Ivani, bom dia. Um sorriso para dizer que isto não era mesmo o que parecia
    no inicio. Junto-me a ti nesta perplexidade de observar as formas como, de pulo
    em pulo, muitos de nós sinalizam a ternura pelos seus próprios filhos. Importante texto.
    A história que partilhas na resposta ao Sérgio sugeriu-me uma ideia… bem, para
    franco uma barbaridade que, espero, desculparás. Ivani é razoavelmente
    parecido com Ivan, tu dispões de uma ironia terrível e, para mais, Tsar não é
    mais do que a russificação do tal Caesar de que falavas. Compreenderás que
    fiquei com pena dos colegas de escola com quem brigaste durante aquele ano.
    Um forte abraço, meu amigo.

  14. Olá, José, bom-dia.

    Bem lembrado o Tsar. Ivan é o nome do meu irmão mais velho, sou o segundo. As três irmãs também têm nomes iniciados assim. Era a moda na época. Odeio modas. Veja o que um nome pode fazer a alguém de índole pacífica como a minha.
    Obrigado por este interessante comentário.
    Forte abraço.

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