Só Contos

Apenas Mais um Arquivo de Palavras

Lar, doce lar

Lar, doce lar…

Por José Sousa

E agora, que mais há para derrotar. Devorá-mo-nos até à medula óssea, nestes últimos anos, tu e eu. Fizemos um com o outro, um ao outro, tudo o que muito bem entendemos. Um combate de fraquezas, uma paz de forças, redenção de histórias, explosão de solidões. Lágrimas e gritos, gemidos, tremores e risos, espasmos, suspiros, ardores e silêncios, líquidos estranhos, suores e substâncias pegajosas, egoísmos e dádivas.

Olhamos um para o outro nesta mesa de cozinha como dois veteranos que regressam de muitas batalhas contra um inimigo comum sem sabermos muito bem o que fazer agora, dois desempregados em busca de um salário. Sorrimos um para o outro desta nossa triste sorte.

” Parece-me que devíamos procurar outra casa.”

Começo eu.

” Sim, esta está um pouco desarrumada demais para o meu gosto.”

Respondes tu e continuas.

” Amanhã?”

” Concordo. Amanhã é um bom dia para isso.”

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12 thoughts on “Lar, doce lar

  1. Maravilha, José

    A mesa de cozinha é a moldura perfeita para a linda gravura das tuas palavras.
    Parabéns, mais uma vez.

    • Olá Ivani, bom dia. Gostei imenso deste teu comentário. Obrigaste-me a concluir
      que muitas das decisões mais importantes desta minha vida tiveram como
      moldura exactamente uma mera mesa de cozinha. Não será um cenário que
      prime pela grandiloquência, mas foi o que se conseguiu arranjar.
      Um fraterno abraço.

  2. Sérgio Werneck de Figueiredo on said:

    O matrimônio visto como união de forças, idêntico a qualquer cooperativismo ou corporativismo que reaja e reforce as barreiras contra os desafios do mundo e ainda vingue apenas diante de uma significativa evolução patrimonial, será sempre exaustivo e ainda cobrará escapadelas para férias; tal e qual qualquer trabalho enfadonho que sirva apenas para o sustento.
    No entanto, em um casamento com amor nasce entre ambos uma figura importantíssima, um amante que se lhes interpõe e se impõe, a quem ambos se entregam de corpo e alma.
    Quanto mais entregues, mais amantes serão um do outro; ela, ele e o relacionamento.

    • Bom dia Sérgio, como estás? Já me habituei aos teus comentários sempre assertivos. O “eu”, o “tu” e o “nós” como roteiro, como mapa para escapar
      a muito do que nos indicas no inicio das tuas palavras. Muito obrigado por
      esta tua reflexão. Um grande abraço.

  3. Pingback: Lar, doce lar | Contos e Crónicas | Scoop.it

  4. Olá meu querido,
    Voltei a um tempo eu lutava contra o inimigo comum, e senti saudades de uma cozinha e sua mesa…
    E is que o amanhã, era sempre “um outro dia”, como bem fala a música.
    Me emocionei…
    Beijo.
    Valeu!

  5. Refazendo:
    Olá meu querido,
    Voltei a um tempo em que lutava contra o inimigo comum, e sentia saudades de uma cozinha e sua mesa…
    E, eis que o amanhã, era sempre “um outro/novo dia”, como bem fala a música.
    Me emocionei…
    Beijo.

    • Bom dia, minha querida Beth. Sabes, acho este conceito de “luta” contra um
      inimigo comum da maior importância na estruturação de todos os nossos
      afectos, de qualquer dos nossos afectos. Desde logo nas nossas relações
      pessoais, mas julgo que não se esgotará apenas nesse universo. A forma como
      aderimos ou não a outro tipo de causas estará, pelo menos na minha mais que
      falível opinião, também muito ligada a esta mesma ideia.
      ” Tudo vale a pena se a alma não é pequena”
      Boa semana para ti e um muito carinhoso beijo.

  6. clara-mente on said:

    A espera na linha de comboio, é um lugar terrífico.Em contrapartida, o sorriso pela triste sorte deles, é sinal de esperança e cumplicidade.
    Depois de tanta “guerra” e prazer, o descanso dos guerreiros.Há “guerras” assim, e prazeres, bem mais do que assim.

    Que possa sempre ter, um doce lar, para as suas palavras.

    • Olá clara-mente, bom dia. Concordo em absoluto que a tal espera, seja onde
      for, na linha de comboio ou num qualquer cais marítimo, será altamente
      angustiante. Devo confessar alguma antipatia pela palavra “espera”, nunca
      lhe apreciei a conotação que pessoalmente lhe dou: ligada, até certo ponto,
      com a noção de apatia. Quando eu ainda andava na escola, dois poemas eram
      presença obrigatória em qualquer manual de leitura: “Pedra filosofal” do
      Gedeão e “Barca bela” do Garrett. A minha resposta pessoal à tal “espera”
      estará algures entre os dois. Muito obrigado pelas suas palavras para com o
      texto. Um beijo e boa semana.

  7. Bom, muito bom…
    Cá está ela outra vez “A mesa”

    Um grane beijo!

    • Olá Dilma, como estás? Pois é… tenho de reconhecer que, nos meus textos,
      mesas não faltam. Pergunto-me o que uma fixação destas poderá querer dizer…
      Um sorriso e um beijo para ti.

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