Só Contos

Apenas Mais um Arquivo de Palavras

Resistência e rasgo

Feminine power – Photo by Victoria Davis

Por José Sousa

Não te tem sido fácil, bem sei. Nem nada, nem nunca, o é. Mas, de alguma forma, consegues fazer com que o pareça. Ensina-me essas palavras mágicas que usas vezes e vezes sem que nunca se gastem. São muito mais poderosas do que estas que sinto e escrevo.

O discurso sobre o estado da nação que a empresa te pediu para ontem. Feito, corrigido e entregue. O miúdo que acordou com chichi. Lavado, incentivado e a dormir. Os restos mortais do jantar. Separados, encaixotados e despachados para o frigorífico na esperança de uma ressurreição.

A miúda que se pintou a ela, aos espelhos e azulejos da casa de banho com os teus batons e outras tintas de interiores. Tratada por “você” enquanto limpava, perguntando porque sorrias e mandada para a cama sem o copo de leite que a tradição manda. E depois, claro, ainda eu.

Pois, eu; bom, eu tento. E este tento nada tem de fugidio, tu sabes. Estou ao teu lado, aqui um passo à tua frente, ali um atrás de ti. Mas sei, sei-o mesmo, que não sou eu o maratonista.

A mim, o rasgo. A ti, a resistência.

Gosto de te observar assim, deitada, serena, tranquila. Por favor não acordes. Gosto de sentir que não ouve o turbilhão do ontem e que a tempestade do amanhã demorará a chegar. Só aqui, na ressaca das minhas madrugadas de escrita, quando me deito ao teu lado, isso se torna possível.

Estou-te profundamente grato pelo que me dás, pelo que me deixas dar-te e, até, pela consciência do que nunca te serei capaz de dar.

Para rasgo e resistência ou resistência e rasgo não está mal, pois não.

Não respondas. Peço-te, descansa.

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19 pensamentos em “Resistência e rasgo

  1. Pingback: Ver! | Blog | Resistência e rasgo

  2. Talvez o pensamento sereno e tranquilo
    precisa de um sussurrus as sõs descrevendo
    do dezerto á realidade, dizendo dos teus sonhos
    O que é real em si-mesma,, mostrando que tudo é
    Igual, mesmo sendo de auto nivel! mais mostrando
    Acima de tudo á singelidades da vida e do ser,em
    si-mesma,, mostrando que tudo é perfeito, mesmo
    O que aparentimente se mostra diferente,, do seu cotidiano
    Natural!! Bom por mais é isso aiiie!! bom dia lindo dia pra voçê!!

  3. José

    A poesia do cotidiano belamente homenageada. Quanta delicadeza. Parabéns e muito obrigado por mais esta.

    • Olá Ivani, como estás? Pois, o quotidiano: uma besta negra, é o que é. Entre resistências e rasgos alguém escapará. Muito obrigado, meu amigo. Bom fim de
      semana e um forte abraço.

  4. Caro amigo José
    A mesmice do dia a dia pintada com as cores poéticas de uma mente de bem com a vida, e é claro com a poesia.
    Um forte abraço

    • Caríssimo Antonio, muito obrigado pelas tuas palavras e pela tua presença. Lá
      teremos de nos esforçar para injectar na mesmice algo de gratificante para nós.
      Um abraço, um excelente fim de semana para ti e para os teus.

  5. Saber valorizar a resistência com naturalidade é algo louvável. Parabéns, José, por este lindo texto.
    Abs.

    • Olá Letitia. Que fazer quando confrontados com qualidades que nós possamos não ter ou ter mas não na medida em que o desejávamos. Admirar ? Desprezar ? Menorizar ? Dominar ? Fiquei com dor de cabeça. Um beijo e bom fim de semana para ti.

  6. Sérgio Werneck de Figueiredo em disse:

    Bonito, José Sousa.
    Isso sim é curtir o momento, namorar a vida.
    Como tudo o que acaba por valorizar a vida são momentos…

  7. Boa tarde, Sérgio. Penso verdadeiramente que o seu comentário tudo diz: conseguir extrair de cada momento o respectivo valor. Fruição de vida. Agradeço-lhe o contributo e o testemunho. Um abraço e um bom fim de semana.

  8. Cecilia em disse:

    Ei José

    Confesso que admirei a essência com que escreve este texto, embora não devia pelo que já conheço das letras do autor. O que comentar ? até nisto ha resistência…rsrs…como sempre gosto do que escreves…

    Adorei..Lindo texto..

    Beijos

    • Bom dia, querida Cecília. E eu confesso que fico sempre muito feliz quando te
      dás ao trabalho de me deixar linhas tão carinhosas como estas que aqui deixas.
      Obrigado e um bom fim de semana.

  9. Oi querido.
    Li, gostei, votei e compartilhei.
    Depois volto para comentar.
    Beijo.

  10. clara-mente em disse:

    Este texto mais parece uma simples canção, a todos aqueles que resistem, quantas vezes em vão, e aqueles que se rasgam, quantas vezes ficando em pedacinhos.Este texto mais parece um tributo a todos aqueles que resistem, julgando-se no caminho certo, onde apenas se revigoram, bebendo os rasgos, daqueles que dão o que sabem e querem dar.Entre a resistência e o rasgo, algures, há-de existir um sentido, quem o souber encontrar, há-de ou hão-de descansar, finalmente.Este texto, também pode ser uma mostra de perfeita complementaridade entre dois seres, coisa nem sempre habitual, nos dias dos sobreviventes.Este texto pode ser tanta coisa e pode também ser, apenas um texto para quem o escreveu e um referencial de sobrevivência, para quem o lê.

    Parabéns ao autor.Se o rasgo é seu, força sempre, para si! Seja qual for a direcção da resistência ou o sentido do rasgo.Um belo texto, um referencial de sobrevivência para mim, foi isso que senti, ao le-lo.

  11. Me pareceu uma confissão de amor. Bem sei que ocorrem estes encontros de madrugada, entre nossos egos despertos mas acalmados pelo silêncio e aqueles adormecidos, a quem podemos então admirar, sem pudor de nos sentir gratos. É como se nada pudesse nos impedir de nos embalar ao som de música e poesia, numa dança, num abraço com aquele a quem decidimos amar. Bonito isto. Psiu…silêncio… o momento é delicado… cuidado para não despertá-la a não ser com um sutil carinhar…

  12. Vera, penso que colocou muito bem a questão: o indicador colocado na vertical mesmo em frente aos lábios e ao nariz. Um enorme sorriso para si.

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