Só Contos

Apenas Mais um Arquivo de Palavras

Tia Esmeralda e as Meninas

As Damas d’Avignon por Pablo Picasso

Por António Macedo

Quem as via sair do prédio de apartamentos em Copacabana, invariavelmente em torno das 21:00 hs, de nada desconfiava, nem mesmo a vizinhança, a todos parecia mesmo como uma velha senhora acompanhada de duas sobrinhas, que aliás era o tratamento que se davam. O porteiro da noite do prédio, esperto e curtido nas madrugadas de várias portarias do bairro, sabia a verdade, tanto é que depois de algum tempo de observação, se aproximou da velha senhora e disse:

- Dona Esmeralda, precisamos conversar!

A velha cafetina ficou chocada ao se ver descoberta, e mais chocada ficara ao ouvir do porteiro, as condições para que tudo continuasse do mesmo jeito.

- Adalberto, é muito dinheiro! as meninas estão começando. E acertou uma determinada quantia a ser paga semanalmente.

A vida seguia o seu curso normal na portaria do Barão de Pirassununga, Dona Esmeralda sempre acompanhada de Carlinha e Bia, saiam no início da noite para fazer o roteiro dos hotéis de luxo da orla de Copacabana, Adalberto, respeitosamente abria o pesado portão de ferro trabalhado.

- Boa noite senhoras!

- Boa noite “Seu” Adalberto.

Retornavam logo no início da manhã, para não despertar suspeitas, Adalberto sugerira que elas antes de voltar, passassem na padaria, para parecer que apenas tinham ido comprar pão para o desjejum. Vinham cansadas, Esmeralda pela longa espera, sentada em poltronas das recepções dos hotéis, e as meninas, bem, as meninas diríamos cansadas pela dura lida.

A doença foi rápida ao chegar, e mais rápida ao se retirar, levando junto a velha cafetina. No velório durante toda a madrugada, apenas os três permaneceram, e ficaram até o derradeiro momento do sepultamento, quando começava a se cumprir o inexorável caminho de retorno ao pó.

Dr. Adalberto, como hoje é conhecido por todos, ainda se relaciona com a Carlinha e a Bia, que diga-se, a fim de merecimento, são as suas melhores e mais produtivas gerentes, de um negócio que envolve mais de 40 apartamentos, cada um com duas sobrinhas e uma velha tia, que ele carinhosamente, chama a cada uma delas de tia Esmeralda. Os porteiros dos prédios ?

Dr. Adalberto, além de pagar mensalmente uma polpuda quantia em dinheiro, distribui a cada um deles uma cesta básica. E está pensando que se na Copa do Mundo, o negócio for bem, irá fazer distribuição dos lucros!

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7 pensamentos em “Tia Esmeralda e as Meninas

  1. Pingback: Ver! | Blog | Tia Esmeralda e as Meninas

  2. Antonio
    Essa tia deve ser do tempo da tia laura, a tia para os menos abastados. rsrsrsrs
    Parabéns por mais esse retrato carinhosos da nossa cidade.
    Forte abraço.

  3. Sérgio Werneck de Figueiredo em disse:

    É verdade, Antonio.
    Sem a visão “empresarial” de Adalberto, o que seria dessas pobres meninas, depois que a zelosa Tia Esmeralda se foi?…
    Talvez, em breve, Adalberto, com sua visão corporativa e a proximidade da Copa vislumbre a possibilidade de encontrar mão de obra também com porteiros, vigias e flanelinhas espertos de cursos de idiomas e de algumas faculdades, já que atualmente, nem a mais velha profissão do mundo pode prescindir de um diplominha…

    • Caros Ivani e Sérgio !
      Primeiramente agradeço a visita frequente de ambos, me honra, assim como, com os seus comentários sempre pertinentes, enriquecem o texto e incentivam o escrevinhador iniciante.

      Ah ! A tia Laura, a rua Alice ! saudades de um tempo, mas se pensarmos melhor esta geração de hoje não tem mais a necessidade de recorrer ao expediente, a coisa anda farta ! lógico, que para quem é chegado no artigo.

      Um forte abraço

  4. O Dr. Adalberto era um verdadeiro homem de negócio! rsrs
    Esse é um excelente retrato da prostituição de “cara lavada” nos meados do séc. XX, agora chamam-se “acompanhantes” e saem à rua sem a “Tia”, embora os Doutores Adalbertos continuem a gerir o negócio. Ou seja é igualzinho… rs
    Abraços, António.

  5. Nada mudou cara Letitia, nada mudou…
    Bom te ver por aqui !

  6. Olá Luisa e Antônio
    Eu já tinha lido esse maravilhoso conto do Antônio antes, muito interessante e retrata com uma fidelidade incrível acontecimentos que poderiam ser bem reais, essas três personagens e o porteiro até poderiam ter sido reais, se é que não foram
    abraços!

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