Só Contos

Apenas Mais um Arquivo de Palavras

O Canteiro do Jardim

O Canteiro do Jardim

Por Letitia Morgan

Colocou a última mala no porta bagagens e fechou-o com naturalidade. A tarde estava cálida; alguns vizinhos tagarelavam na entrada do prédio, outros passeavam os seus cães, para cá e para lá; havia ainda os que vigiavam os filhos, que brincavam no pequeno parque infantil. Todos aproveitavam a ilusória paz de sexta-feira à tarde. As sextas-feiras têm a magia de envolver a alma dos seres humanos, numa espécie de liberdade condicional; isso deixa-os mais leves, mais comunicativos, mais exuberantes e solidários. Algumas pessoas olhavam para ela vagamente, sem realmente a ver, outras sorriam e murmuraram um simpático bom fim de semana ou boa viagem, ao que ela respondia com delicadeza e simpatia. Sem pressa, mas decidida, trancou o carro e voltou a entrar no prédio. Não esperou pelo elevador e subiu as escadas até ao 2º andar. Abriu a porta do seu apartamento e, com desenvoltura, verificou todas as dependências, arrumando, aqui e ali, algum objeto em desalinho. Fechou os estores quase completamente e abriu uma tira da janela, em cada dependência, para que o apartamento se mantivesse fresco e arejado. Depois colocou alguns objetos num saco de mão, trancou a porta e saiu. Voltou a usar as escadas até à entrada, descendo com agilidade.

Meteu-se no carro, pegou no telemóvel e fez uma ligação.

- Mãe vou sair agora, mas ainda tenho que parar na Guarda, por isso não chegarei antes das duas da manhã. Não precisas de esperar por mim.

- …

- Obrigada mãezinha. Beijinhos e até mais logo!… Fica descansada, eu vou devagar…

Saiu do seu bairro e entrou na estrada nacional. Parou numa estação de serviço, abasteceu e depois escolheu para estacionar, um lugar nas traseiras do restaurante. Calçou umas luvas de silicone, abriu o porta bagagens do carro e tirou lá de dentro um saco de plástico preto. Atirou-o para dentro de um dos contentores de lixo, que serviam o restaurante. Descalçou as luvas, e, com elas apertadas na mão fechada, contornou o edifício e colocou-as num caixote do lixo, de plástico colorido em forma de gelado, que estava à entrada do restaurante. Entrou, bebeu um café, comprou duas garrafas de água e voltou para o carro. Conduziu, sempre dentro dos limites de velocidade e observando todos os sinais e regras, no sentido de Vilar Formoso, passando Guarda ao largo. Cerca de uma hora depois, virou à direita para uma estrada secundária. Passados alguns quilómetros virou de novo à direita e entrou num caminho de terra batida. Sempre a subir, a dada altura, já a uma altitude considerável, parou o carro. O Sol já estava perto do horizonte e depressa se faria noite. A natureza estava calma e sedutora. O silencioso sussurrar da mata era apenas interrompido pelo piar agudo dos mochos, estremunhados dum dia dormente, ou pelo uivar longínquo dum lobo alfa, ou, quem sabe, apenas com fome. Aspirou o ar límpido e encheu a alma com a fragrância dos pinheiros e do rosmaninho, que crescia naquelas encostas em enormes moitas.

Abriu o porta bagagens do carro e tirou lá de dentro um enorme impermeável azul escuro e umas galochas. Vestiu-o, calçou as galochas e, de seguida, procurou algo numa caixa. Finalmente, tirou lá de dentro umas luvas de jardinagem, grossas e em pele amarela, as quais calçou. Olhou para o relógio e pegou numa pá, então e fez três buracos, não demasiado fundos, debaixo de três grandes arbustos de giestas, razoavelmente distantes uns dos outros. Da mala do carro tirou três mochilas de lona. Com cuidado despejou o conteúdo de cada uma delas, em cada uma das covas. Pegou nas mochilas e, com um isqueiro, ateou-lhes fogo. Enquanto as mochilas ardiam tapou cada uma das covas com cuidado. Procurou alguns ramos secos e cavacos, colocando-os em cima da terra revolvida de fresco. Olhou de perto o trabalho, depois afastou-se e olhou de novo. Pensou que estava perfeito. Das mochilas de lona apenas tinham restado as fivelas. Apanhou-as, meteu-as dentro dum saco de papel, que atirou para o banco da frente do carro. Com alguns ramos secos varreu os restos carbonizados das mochilas até o chão ficar sem vestígios de fogo. O sol já tinha desaparecido no horizonte e a noite começava a cair sobre a serra. Uma noite linda, azul e pura como no princípio dos tempos.

Descalçou as luvas, despiu o impermeável e tirou as galochas. Guardou o equipamento no porta bagagens, rearrumou-o e fechou a porta. Olhou para o horizonte e sentou-se numa pedra. Pensou que a natureza é perfeita. Equilibrada. O Sol não pede licença para queimar as ervas, as chuvas não pedem desculpa pelas cheias que provocam, os ventos são indiferentes aos carvalhos ou aos edifícios que derrubam. Também as raposas não choram os coelhos que caçam, nem os lobos as ovelhas ou cabritos; as águias não rezam pelas almas das lebres que agarram, nem os mochos pelos ratinhos que lhe servem de refeição. Nem sequer, os grupos da mesma espécie se ofendem ou odeiam uns aos outros, quando, nalguma rixa pelo domínio do território, ou pela chefia, caem, sem vida, alguns companheiros. Sobreviverão sempre muitos, os mais fortes, os mais ágeis e saudáveis. Todos coexistem em equilíbrio. A natureza não tem segredos. Os seres humanos têm. E por isso a sua vida é amargurada, equilibrada numa corda bamba que pende ente o dever e o ser.

Os homens escondem os seus pecados, aqueles que são ditados pela consciência e os outros, os que são fabricados e impostos pela sociedade. Alguns desses pecados, apenas pequenos gestos naturais, foram, ao longo de milhares de anos, transformados pela tradição em atos vergonhosos, chegando a arrastar para a lama o indivíduo e, muitas vezes, famílias inteiras. Ela também tinha os seus pecados. Pensou que os seus eram meramente sociais, não pensava assim para aliviar alguma culpa que pudesse sentir, pensava assim, porque a sua consciência não sofria por eles. Apesar disso eram fardos. Não desgostos. Fardos. Não arrependimentos. Apenas fardos, que custavam a carregar, pois o medo da punição social era pesado. Guardava algumas coisas só para ela, coisas que não podia partilhar com ninguém. Guardava também segredos alheios, que a entristeciam e magoavam, coisas que lhe enegreciam a alma. Nada de mal deixaria que acontecesse aos que amava.

A noite já tinha caído. A Lua, em crescente, já dançava no céu. Ela recordou outra noite de luar, há muito tempo, há dezassete anos. Sentado num degrau da porta de sua casa, um homem tentava convencê-la a tirar as roupas, para que ele a fotografasse. Uma sessão fotográfica, dissera. Um trabalho sério, só feito por meninas bem mais velhas do que ela, ou então por mulheres. O pagamento estava na mão dele. Uma caixa cor-de-rosa, onde o papel celofane, da tampa, deixava ver uma barbie vestida de princesa. Os seus olhos brilharam e o coração quase lhe saltou do peito, perante a ideia de ter entre as suas velhas bonecas uma barbie tão linda. Mas algo a fez levantar e dizer não. Não tinha sido o facto de ele lhe ter pedido para ela se despir, pois isso não era de todo estranho, já que o homem não era um homem qualquer, era o namorado da mãe. Ele já a tinha ajudado a vestir o pijama algumas vezes, nesses três anos em que a mãe namorava com ele. Conhecia-o desde os seis anos. Tinha sido o secretismo com que ele envolveu o evento, que ela achou pouco natural. A mãe não estava em casa e só sairia do hospital, onde era enfermeira, por volta da meia-noite. Achou que a mãe também gostaria de participar nessa sessão fotográfica e ver o presente que ela iria receber. Por isso levantou-se, disse que fariam isso amanhã, deu-lhe as boas noites e foi para o seu quarto. Despiu-se, vestiu o pijama e meteu-se na cama. Já estava quase a dormir quando ouviu a porta do seu quarto a abrir-se. Acendeu a luz da mesinha de cabeceira e viu-o. Lá estava ele, sorridente, com a caixa numa mão, enquanto fechava a porta do quarto com a outra. Não conseguiu sufocar um grito de pavor, então ele correu para a cama e tapou-lhe a boca com uma mão.

Ela tentou, em vão, debater-se. Ele colocou a caixa com a boneca na mesinha de cabeceira e começou a desabotoar-lhe o pijama. Acariciou-lhe o peito, ainda sem qualquer sugestão de mamas. Depois perguntou-lhe se ela iria ficar calada ou se era necessário ele tapar-lhe a boca com adesivo. Ela aquietou-se, cerrou os dentes e chorou baixinho, enquanto ele metia a mão direita nas calças do seu pijama. Subitamente, a porta do quarto abriu-se e a figura da sua mãe surgiu na ombreira. Ela gritou mãe, ele olhou para trás e viu a mulher. Os seus olhos, muito abertos, estavam simultaneamente assustados e admirados. A mãe correu para ela, abraçou-a, deixou-a, voltou a abraçá-la, atirou-a para a cama e pegou no candeeiro da mesa de cabeceira. Arrancou-o da ficha e o quarto ficou às escuras. Ela levantou-se e correu até ao interruptor do candeeiro do teto e acendeu a luz. A mãe agredia o homem de qualquer maneira, enquanto dizia bendita enxaqueca… bendita enxaqueca…. Com uma força brutal, empurrou-o contra a parede, agarrou um pequeno banco de madeira e atirou-lho à cabeça. O homem finalmente caiu desmaiado. A mãe correu para ela e abraçou-a. E chorou. Chorou muito.

Quando ambas se acalmaram a mãe largou-a devagarinho e dirigiu-se para o homem desmaiado. Olhou-o com olhar profissional e colocou-lhe os dedos na garganta. O coração parara. O homem estava morto. O quintal era grande e a mãe tinha aberto, no fim de semana, um buraco redondo no chão para fazer um canteiro, quase em frente à entrada da casa. Estava destinado a levar terra adubada para depois se colocarem umas bonitas plantas que eram mantidas em vasos pequeninos. Então a mãe, com todas as luzes apagadas, cavou o buraco bem mais fundo, até lá caber um homem. Depois tapou-o de modo que não se percebia que o tal canteiro tinha sido mexido. Dois dias depois, aproveitando uma folga, a mãe dedicou-se à jardinagem. Primeiro encheu o canteiro com a terra fértil, depois, com a sua insistência em ajudar, ambas dispuseram lindas e coloridas flores, que retiraram cuidadosamente, para não ferir as raízes, dos pequenos vasos de plástico. O canteiro ficou tão lindo que todos os vizinhos o elogiavam.

- A tua mãe ontem à noite esteve a cavar no canteiro…

- Não esteve nada.

- Esteve sim, eu acordei com um barulho qualquer e vi. Se não era ela era outra pessoa qualquer… parecia uma bruxaria…

- És mesmo mentiroso, estás a inventar tudo.

- Não estou nada… cavou que eu vi… e até me pareceu que empurrou qualquer coisa lá para dentro…

- Deves ter sonhado… és mesmo aldrabão!

- Estava acordado e vi alguém às voltas com o canteiro, ai isso é que vi!

Esta conversa tinha ficado por ali. O rapazinho, da sua idade, observador e irritante, ficara com a ideia que a mãe da garota era maluca, ou bruxa. A partir daí ela evitava-o sempre que podia e nunca mais o convidou a brincar no seu jardim. Mesmo assim, ele de vez em quando aparecia, então gabar-se de alguma façanha, ou contava alguma história macabra. Entretanto ela foi estudar para a cidade, nesse mesmo ano, logo após a primária. Deixou de brincar assiduamente com os meninos da aldeia, crescera, formara-se, tinha começado a trabalhar e a sua mãe, então, com a filha adulta, resolvera aceitar um trabalho em Salamanca, e ela ficara a morar na mesma casa. Com a ajuda financeira da mãe, fizera algumas melhorias e tinha até remodelado o jardim, sem, contudo, mexer no belo canteiro redondo repleto de jacintos, violetas e túlipas. Era feliz ali, no lugar onde nascera. Mas um novo trabalho fê-la mudar-se para a cidade, onde comprou um pequeno apartamento. No entanto, passava quase todos os fins de semana na sua velha casa. Gostava do sossego da aldeia e, com alguma frequência, levava com ela amigos e colegas de trabalho. Tratava dela e do jardim e, às vezes, conversava ou bebia uma cerveja com o rapaz da casa ao lado, cujos pais também lha tinham deixado.

- Lembras-te quando a tua mãe fez este canteiro?

- Foi há tanto tempo!… Lembro-me lá disso…

- Já sei o que ela lá escondeu.

- Escondeu!… Que poderia ela ter escondido num canteiro?

- Não me digas que não te lembras… na altura falamos.

- Um tesouro, talvez!…

- Um corpo.

- Andas a ver muitos filmes…

- E tenho quase a certeza a quem pertence.

- Deixa de dizer disparates! Agora andas armado em detetive?

- Andei a investigar e a ligar pontas… Isso dava uma história fantástica. Se houver corpo, ele pode pertencer a um namorado que ela teve, tu deves lembrar-te, ainda namoraram uns anos.

- Tás maluco. O homem foi viver para outro sítio.

- Isso foi o que ela te disse… está uma bela noite. Sabes, há coisas da nossa infância que nos deixam impressionados, ficam adormecidas durante anos e anos, depois, um belo dia voltam… Queres ir até à aldeia tomar um café? Aposto contigo que, se cavarmos o canteiro, vamos encontrar o corpo do homem…

- Que disparate! Eu fico por aqui a ver um filme… de terror!

- Podíamos cavar uma parte do canteiro, o que dizes?

- Digo-te que estiveste a fumar uma erva fora do prazo!

- E não queres abrir o canteiro porquê? Se calhar também viste alguma coisa e não disseste nada…

- Tu és mesmo parvo. Parvo e tinhoso. Achas que eu ia estragar o meu canteiro por causa de mais uma das tuas invenções?

- É só para comprovar uma teoria. Tu também ficas mais descansada. Vá lá…

- Ok. Amanhã de manhã vamos cavar, mas nem penses que vou estragar o canteiro todo! É só um pequeno diâmetro e a uma ponta!

- Fixe, mal posso esperar! Que me dará a tua mãe para eu manter a boca calada?!…

- Se calhar dá-te um Óscar para o melhor argumento!

- Vai gozando…

- Olha, em vez de irmos tomar o tal café à aldeia, não queres antes ir ver um filme à cidade? Podíamos ficar no meu apartamento, se não nos apetecesse voltar de madrugada.

- E não tens medo que eu te seduza?…

- Nem um bocadinho.

- Ora bolas!… Mas até que é uma boa ideia. Bora lá!

- Dá-me só vinte minutos para me arranjar. Podemos ir na tua moto? Há anos que não ando…

- Na boa! Eu arranjo-te um capacete. Vou preparar-me!

Que pontas teria ele juntado? O que teria descoberto? Possivelmente nada. Era apenas um idiota teimoso que seguia cegamente o caminho que tinha imaginado. Ele estava a especular, tinha a certeza, apenas procurava uma história mórbida para publicar no pasquim onde trabalhava. Mas ela tinha um problema para resolver e iria resolvê-lo.

Depois do cinema entraram num barzinho, beberam uns drinks e ouviram um pouco de música. De seguida foram para o seu apartamento. Lá, ela ofereceu-lhe mais uma bebida na qual acrescentou quatro Xanax moídos. Quando ele estava bem adormecido, despiu-o e meteu a sua roupa e capacete dentro dum grande saco de plástico. Estendeu várias camadas de sacos de plástico no tapete da sala e deslocou para lá o rapaz, o melhor que conseguiu. Com uma afiada faca de cozinha, esfaqueou-o com força, duas vezes, no peito. Tomou-lhe o pulso e esperou que ele parasse de latejar. De madrugada, quando chegou perto da aldeia, apagou as luzes da moto. Já perto das casas, desligou o motor parando-a em frente à casa que ficava ao lado da sua, depois levou-a à mão até à porta do barracão, que lhe servia de garagem. Abriu o portão com todo o cuidado e estacionou-a no lugar de sempre. Deixou o capacete dele pendurado no volante e o que ela tinha usado sobre uma prateleira. Contornou a casa e, sem descalçar as luvas, procurou debaixo do tapete a chave da porta das traseiras. Abriu a porta, e tateou até encontrar as escadas que a levariam ao piso superior. Subiu as escadas bem segura ao corrimão para não tropeçar e, finalmente, encontrou a porta do quarto dele. A luz do dia começava a despontar e ela não teve dificuldade em encontrar o guarda fato, o qual abriu, pendurando lá dentro as roupas de cabedal preto, que tinham pertencido ao rapaz.

Saiu da casa dele, fechou a porta à chave e voltou a colocá-la debaixo do tapete. Saltou a pequena vedação de bucho que separava as duas casas, abriu a porta das traseiras de sua casa, subiu ao quarto, despiu-se e deitou-se. Dormiu até cerca das onze horas da manhã. Então regou o jardim, almoçou, deu um jeito no pó da casa e foi entregar o filme ao clube de vídeo. De caminho passou na pequena esquadra da GNR e informou que nos próximos dois fins de semana não poderia vir, pois estaria de férias, pedindo que dessem uma vista de olhos extra à sua casa. Na volta, encontrou uma velha vizinha e regressaram ambas a conversar animadamente. A idosa senhora ofereceu-se para lhe regar o lindo jardim, enquanto ela estivesse fora. Ela agradeceu, foi para casa, preparou o jantar, arrumou a mala e colocou-a no porta bagagens. Jantou e, quando já estava a lavar a loiça, a campainha da porta tocou. Limpou as mãos e foi abrir. Era uma rapariga sua conhecida que lhe viera perguntar se vira o rapaz da casa ao lado. Ela disse que não, que tinha estado com ele ontem, mas hoje ainda não o vira, a rapariga resmungou, disse que ele era sempre a mesma coisa, que combinava coisas e não cumpria, às vezes chegava a desaparecer três e quatro dias seguidos. Ela pensou que esse era um excelente hábito do seu vizinho.

Chegou ao seu apartamento cerca das dez da noite. Estendeu uma larga manga de plástico no meio da sala e deslocou para lá o corpo do rapaz. Dedicou-se, então, à repugnante tarefa de dividir em pequenos pedaços, o corpo do vizinho, investigador de velhas histórias trágicas. Depois colocou os bocados cortados em três sacos de plástico que acomodou na arca congeladora. A semana passara lentamente. Tinha pedido, no trabalho, cinco dias de férias para ir visitar a mãe, pedido que foi prontamente atendido e agora estava ali, sentada naquela pedra, a comungar com a natureza a sensação de dever cumprido.

Só os seres humanos têm segredos. Este era o seu segredo. Não o considerava hediondo, não a fazia sofrer, também não se orgulhava dele. Era como limpar o pó à velha casa, não era uma tarefa agradável, mas tinha de ser feita, pois é  muito mais gratificante, para todos, viver num espaço bonito e limpo. Estava em paz consigo mesma, mas, pela sua sobrevivência e liberdade, não partilharia o seu segredo com ninguém. É assim o Homem, cheio de gestos inconfessáveis.

Levantou-se e entrou no carro. Conduziu devagar, iluminando a estrada apenas com os mínimos. Ligou os médios quando chegou à estrada principal. Andou alguns quilómetros até encontrar o acesso para o auto estrada. Aí conduziu depressa. Antes de chegar à fronteira abrandou a velocidade e foi para a faixa da direita. Abriu a janela do lado do pendura, despejou o conteúdo do saco de papel, colocou os quatro piscas e, quase parada, atirou, uma a uma, para bem longe, as seis fivelas que antes tinham pertencido às mochilas queimadas. Depois amachucou o saco e deixou o vento levá-lo em movimentos espirais. Fechou a janela, desligou os piscas e continuou o seu caminho.

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12 pensamentos em “O Canteiro do Jardim

  1. Pingback: Ver! | Blog | O Canteiro do Jardim

  2. Sérgio Werneck de Figueiredo em disse:

    Cara Letitia, peço que morram todos aqueles que são dignos do justificado ódio com que os mata.
    No entanto, ocorre-me que, depois faltarão personagens para a libertária tesão sedutora que demonstras ao atraí-los.
    Prometa-me que não me matarás e serei sua próxima vítima!…

  3. Olá Letitia, boa tarde. Surpreendente história. Sabe, melhor que eu, que tem os condimentos de um excelente romance e não apenas de um conto. Sinceros cumprimentos. Muito obrigado.

  4. Letitia

    Estava a sentir a tua ausência por aqui. Parabéns pelo “filme” que nos ofereces rsrsrs. Senti-me ao lado da tua personagem o tempo todo. Tens uma narrativa poderosa.

  5. Gostaria de pedir desculpa, pela longa narrativa, pois, só me apercebi de como era enorme, agora, editada no Só Contos. Penso que é um tanto desenquadrada para um blog. Prometo que, numa próxima vez trarei um conto mais pequeno!

    Abraços e boa semana a todos!

    • Eu amo o suspense. Gosto do gênero nos filmes, gosto nos livros, gosto nos blogs rss.
      Este é, sem dúvida, um excelente conto. Muito bem escrito, as palavras colocadas de modo acertado, sem deixar brechas onde surgem dúvidas que deixam a leitura com ar de que está faltando alguma coisa. Enfim, perfeito – gostei.

      Sandra

      • letitiamorgan em disse:

        sanfran, agradeço do coração o teu incentivo! Eu também não me importo de ler o que gosto numa tela, seja o texto grande ou pequeno.
        Super obrigada pela análise, penso que é assim que poderemos melhorar!

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