Pegadas na Areia

Pegadas na Areia
Por Luísa L.
Acabou o dia de trabalho, se trabalho se poderia chamar, era mais um entreter de dedos nas teclas, um passar do tempo a introduzir dados, uma ocupação ritmada dos neurónios a elaborar fórmulas de cálculo, um ganha pão dançado ao som frenético dos objectivos a atingir. Veste o casaco Pedro, está na hora. E Pedro vestiu o casaco, arrumou alguns objetos na secretária já arrumada, alinhou meticulosamente a cadeira já alinhada, verificou, mais uma vez, se o computador estava desligado e saiu. Gostas de caminhar à tardinha, Pedro? E Pedro não gostava, mas caminhou. Andou pela calçada à beira mar e viu o Sol começar a declinar. Os carros passavam por ele em fila de fim de dia; nervosos paravam e arrancavam, irritadiços guinchavam os travões como quem pede socorro. Pessoas passavam por ele; para cá e para lá, riam, falavam, sussurravam e esbracejavam, criando uma inebriante música de outro mundo. O Sol vai beijar o mar… E Pedro surpreendeu-se com aquela entrega dourada. Afinal, não é tão mau caminhar. Então ouviu a avenida silenciar-se e sobressaírem os gritos grasnados das gaivotas; espantado, parou para ver o Sol que, em movimentos lentos e sensuais, mergulhava no lençol de seda azul escuro, que tapava o mar.
Gostarias de voltar a vê-la, Pedro? E Pedro gostaria. Muito. Então desceu as escadas em direção à praia e, na esplanada, sentou-se numa mesa. Pediu uma cerveja, virou a cadeira para o mar, fechou os olhos e procurou os lábios que beijariam a sua boca; as mãos, que haveriam de tocar levemente o seu rosto, enterraram-se-lhe no cabelo até lhe doer o desejo. Pedro abriu os olhos, mas não a viu, ela não estava ali. E porque estaria ela aqui, Pedro?
- Desculpe, pode dizer-me que horas são? É que o relógio do bar está parado…
Pedro sobressaltou-se. Atrapalhou-se. Engasgou-se. Encheu-se de calor e corou, ou pelo menos assim pensou, pois o rosto ardeu-lhe dolorosamente. Os pensamentos não se ouvem Pedro, nem os mais íntimos! Então, com uma serenidade que estava longe de se coadunar com o rebuliço que lhe ia na alma, Pedro respondeu que eram 19:50h. Ela agradeceu e sorriu. Era um sorriso apagado, esmorecido, talvez triste. Tem uma voz tão doce… Ela afastou-se e desceu o lance de escadas que a levaria à praia. Pedro amaldiçoou-se. Agora é tarde demais para lhe retribuíres o sorriso, Pedro. No último degrau da escada, ela descalçou os sapatos. Grácil, como quem despe o corpo, tirou primeiro o direito e depois o esquerdo, e, com um em cada mão, caminhou em direção à beira mar. Pedro pediu outra cerveja, voltou a fechar os olhos e tornou a procurar os braços macios que o abraçariam. Vá, desce a escada, descalça os sapatos no último degrau e segue as suas pegadas! E Pedro continuou sentado com a cerveja na mão, mas já não conseguiu fechar os olhos. Perdeste aquela voz de mel e aquele sorriso bruxuleante. E Pedro continuou sentado esprairando o olhar, concentrado nas ondas que iam e vinham. Ela caminhava em passos lentos, parando aqui e ali, olhando para trás de vez em quando, num convite mudo para ninguém, timidamente, como se esperasse que determinado milagre lhe seguisse os passos.
Pedro pagou as cervejas e levantou-se. Caminhou hesitante até às escadas de acesso à praia e ficou ali parado a olhar para o último degrau. Agora já perdeste todas as oportunidades, Pedro. Vai para casa, põe a lasanha no microondas, janta sozinho, afinal tens todo o serão para sonhar com ela. Amanhã voltas… E Pedro desceu os degraus dois a dois e entrou na areia calçado. Sempre a andar, como quem não quer perder o seu tempo ou a coragem, descalçou o sapato do pé direito enquanto tentava equilibrar-se com o esquerdo, depois repetiu a operação para o pé esquerdo, e, finalmente, com os pés completamente nus, seguiu decidido as pegadas por ela deixadas.












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Luíza, o que dizer ? sou um leitor voraz de bons textos, e aprecio aqueles que esteticamente me conduzem na velocidade da leitura necessária, tenho que reler, quando o texto me surpreende. “Pegadas na areia”, mereceu as duas leituras.
Um forte abraço de admiração
António, muito obrigada pela tua amabilidde!
Fico muito contente, pois a visão de um contador de histórias como tu é importantíssima.
Grande abraço.
Luísa, tua elegância me compraz, absorve e estimula. Grande beijo.
Ivani, muito obrigada!
Beijos!
Luisa,
sua narrativa tem a beleza suave dos gestos sedutores. Linda forma de narrar, perfeita para o conto delicado em que se pode entrar em contato com os sentimentos de Pedro e o convite para que ele abra os olhos e siga as pegadas.
Muito lindo!
Beijinhos
Olá, Van!
Quantas vezes os nossos pequenos medos nos levam a desistir da experiência.
Muito obrigada por leres!
Beijinhos.
Luísa, olá. Sensual, Intenso, Magnético. Levas o leitor nas tuas pegadas. Quando terminei a leitura tive de limpar a areia dos pés antes de me calçar. Muitos parabéns. Um abraço.
José, muito obrigada pelo teu comentário. Fiquei muito sensibilizada.
Grande abraço!
Luisa, você escreveu um conto e inseriu nele poesia: “…espantado, parou para ver o Sol que, em movimentos lentos e sensuais, mergulhava no lençol de seda azul escuro, que tapava o mar.” – Lindo isso!
Sandra, muito obrigada, minha querida! Afinal a poesia faz parte da natureza, nós é que nos esquecemos dela…
Beijos!
amiga as pegadas dela, ficou marcada na areia e na mente de Pedro…valeu…fuiiii
Olá Luiza, como admiro sua escrita. Sempre clara, e envolvente!
Como perdemos oportunidades pensando demais não é amiga?! As vezes a impulsividade é nossa companheira. Mas como saber quando??????
Beijo no coração
Ah, Valeria, talvez nós pensemos demais no “se vale a pena” e no “é oportuno”… sei lá, a lasanha e o serão a ver TV estão sempre garantidos! Tudo o que fizermos além disso é viver.
Um enorme beijinho e muito obrigada!
É verdade Moreijo! Muito obrigada por estares aqui a ler as minhas divagações, amigo!
Seguir as pegadas de um sonho, o primeiro e necessário movimento de quem vive e é sensível à inútil, solitária e nua liberdade de si mesmo.
Sem dúvida, Sérgio, concordo plenamente!
Muito obrigada por leres e comentares.
Belíssima narrativa!
Letitia, obrigada pela tua leitura e comentário!
Muito bonito, Luísa! Saudade dos teus contos…
O que dizer? A descrição do descalçar os sapatos foi perfeita. Ela toda delicada e graciosa. Ele, um sem noção e completamente desorientado, como sua vida.
Beijinhos, minha querida Luísa!
Fábio, que bom ver-te aqui, meu querido!
Muito obrigada pelo teu comentário e um enorme beijinho.
Ah Luísa. Eu aqui estava inconsolável já imaginando o sininho do micro ondas a ecoar na vida dele e então… tu o fazes acordar! E pude sentir o susto dela, a respiração entrecortada pela surpresa, ao olhar a derradeira vez para trás e dar com ele, ali tão perto, finalmente…que alívio o meu…que delícia…mais um encontro se faz.
Adorei teu jeito de nos contar …
Vera, sempre romântica e sentimental… Mas é assim que a vida deveria ser, não é? Cheia de pegadas na areia!
Muito obrigada pela tua presença.
gostei muito de ler pegadas na areia nao era muito fan mais agora quero ler todas ok muito obrigado
Muito obrigada Anderson!
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