Só Contos

Apenas Mais um Arquivo de Palavras

Na Beira

Quando o mar é o céu

Por Ivani Medina

Olhos fixos em coisa alguma e o silencio a responder a pergunta que não fez. Até o tempo havia se cansado e estava preguiçoso demais. Passar pra quê? Parou e sentou-se também. O brilho refletido pelas ondulações da lagoa o hipnotizava. A brisa forte do início da tarde, o estomago saciado com peixe, arroz e farinha o mantinham naquele estado de graça. A vela de uma canoa distante nem lhe chamou atenção. Não havia atenção a ser chamada.

─Binho. Binho. Ô Binho! Tá dormindo de olho aberto? Tenho uma notícia que você vai gostar.

─Humm.

─Ha, quer saber não? Tá bom, tô indo.

─Desculpe, eu estava longe…

─Carminha chegou.

De volta ao planeta, Binho precisou de alguns segundos para retomar a sua realidade que por instantes o havia deixado em paz. A semana inteira havia pensado nela e quando a sorte lhe dera uns instantes de sossego, pronto! Lá veio alguém pra lhe tomar. Ia começar tudo de novo. O coração a pulsar nos ouvidos e controle algum naquele inferno doce. Só conseguia dizer besteira, nunca o que achava que precisava dizer diante dela. Com as outras, ele era o adorável safado, mas com Carminha o detestável idiota. Pelo menos, era assim que se imaginava. Para ele, a adorável safada era ela.

Carminha era segura demais para o gosto masculino. Sua beleza consciente fazia dela uma moça mais escorregadia do que peixe vivo. Ela não pensava ser de ninguém como uma propriedade, queria continuar propriamente Carminha. Vá explicar isso aos sonhadores cobiçosos. Binho era apenas mais um, mas se imaginava com mais direitos do que todos porque seu amor era sincero. Carminha respeitava o sentimento dele, ser amada era muito bom, mas não pediu nada tão perigosamente intenso a ninguém, ao menos dali.

A moça havia se ausentado por um mês inteiro daquela vidinha modesta de caiçara. Havia ido ajudar nos preparativos do casório de uma prima na cidade grande, a se realizar em breve. A ausência pra quem gosta nunca é curta. Um mês inteiro fez dela ainda mais linda do que antes. Algo de novo sucedeu com Binho. Aleluia! Daquela vez ele conseguiu dizer a ela o que mais queria e como queria dizer. Ela o ouviu constrangida e explicou que havia conhecido um rapaz na cidade grande e que depois do casamento talvez não voltasse mais.

No dia seguinte, Binho estava no mesmo lugar aonde recebeu a notícia do retorno de Carminha. Olhos fixos em coisa alguma e o silencio a responder a pergunta que não fez. O brilho refletido pelas ondulações da lagoa o hipnotizava. Nunca mais se levantou de lá.

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5 pensamentos em “Na Beira

  1. Pingback: Ver! | Blog | Na Beira

  2. Lindo e angustiante, acho que ele demorou tempo de mais para fazer o que era preciso.

  3. Cecilia em disse:

    A espera de uma oportunidade, e a decepção de uma resposta,
    Binho tentou, imaginou, sonhou, e até sentiu, mas nunca se realizou..
    Talvez uma esperança que morreu ali na beira…adorei..

    Beijos

  4. Marcos, muito obrigado pelo seu comentário. Verdade, o tempo é sempre um problema para a realização de um desejo. O difícil é compatibilizar os dois.

  5. Cecília, muito obrigado. É o velho “morrer na praia”. Amores também morrem lá.

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