Só Contos

Apenas Mais um Arquivo de Palavras

A Aposta no Cavalo Errado

Lady Godiva por Luis Villagran Ortiz

Por Luísa L.

- Eh lá… acho que estás a apostar no cavalo errado.
– Quero lá saber, ela é boa, boa, boa, toda boa!
– Mas tu tens uma mulher porreira…
– Eu sei, mas ela não me atira para as palhas do estábulo e não me olha com aqueles olhos enormes sedutores e meigos, meigos, meigos… que me chamam e hipnotizam.
– Sabes lá o que dizes…
– Ela despe-me com aqueles olhos brilhantes e olha-me com as suas mãos macias e longas, que me fazem vibrar só de as imaginar.
– Isso tudo é muito poético… Se a tua mulher descobre…
– Ela é chata, chata… muito chata. É negativa, irritantemente responsável e certinha. Sempre a sugerir-me os caminhos de todos os dias, sem emoção nem paixão. Só me apetece estar longe dela.
– E tens um filho pequeno…
– Ah, esse anjinho está bem com a minha mulher.
– Mas, se a tua mulher descobrir vai sofrer, não percebes?
– Ah, não me lembres disso, faz doer. Ainda bem que isso só me incomoda uns segundos… Corro para a minha amazona e esqueço-me dos pormenores que me correm mal na vida.
– Pormenores?!…
– Só de imaginar os seus olhinhos brilhantes, os seus lábios sensuais, a sua atenção, a sua meiguice, as suas mamas, as suas pernas… e aquele cú…
– Pormenores… Disseste pormenores?
– Acredita, faço qualquer coisa que ela me peça. Ela é toda maravilhosa: o seu corpo… ai o seu corpo… acredita que nunca fiz amor com uma mulher que me deixasse tão feliz e preenchido. Além disso, dá-me paz, tanta paz… Sinto-me no céu. E é tão meiga e pura. Tudo nela é alegria de viver, juventude, calor, compreensão… tudo!
– Estás é bêbado de cerveja e da gaja! Pior, estás a fugir dos problemas reais.
– Enganas-te. Estou a usufruir do melhor que há na vida! E quero ficar assim para sempre.
– Estás a comprometer o teu trabalho…
– Quero lá saber! O meu trabalho está uma merda. Para estar com ela eu faço tudo, tudo mesmo! E ela está sempre ali para mim, sempre disponível. Sem sermões de carneirada, sem pedagogias baratas, sem arquiteturas balofas.
– E com merda de galinha na cabeça…
– Ela é a minha água da vida! Sem trabalho, sem casa e sem família, eu sobrevivo, sem ela morrerei.
– Valha-me deus, que burro… E a tua saúde, amigo, olha para ti: tremem-te as mãos, estás quase vinte e quatro horas por dia bêbado, perdeste o bom senso e o brio, mal comes…
– Mas bebo o néctar dos deuses com ela, e quando estou quase morto a minha deusa trata de mim. Com aquelas mãos maravilhosas massaja-me todos os músculos… mas todos mesmo, até eu voltar à vida… Só ela me consegue ressuscitar… – sorriu extasiado – Além disso ela precisa de mim, precisa da minha presença, dos meus conselhos, da minha ajuda…
– Pois, então não!… É mais dos almoços e jantares que pagas, dos copos que desembolsas, dos hotéis que debitas no cartão de crédito e do dinheiro que lhe “emprestas”.
– Isso são pormenores. Ela está apaixonada por mim, tenho a certeza. Com ela sinto-me homem, sinto-me querido, desejado, adorado… sei lá! É especial. Sei que estamos ligados um ao outro para sempre. Não consigo deixar de pensar nela nem um segundo. Fico doido quando ela não atende o telefone. Encho-me de medo quando ela não pode estar comigo, um medo enorme de ela já não me queira… Mas eu sei que quer, é estúpido este sentimento.
– É uma merda duma paixão é o que é… E a tua mulher meu…
– És advogado da minha mulher ou o quê?…Cala-te lá com a minha mulher… eu amo-a e ela sabe disso…
– Mostras esse amor muito mal…
– Custa-me suportar a sua tristeza, por isso prefiro ignorar tudo o que lhe diz respeito. Eu sei que ela me ama também… Prefiro esvaziar-me dela e assim nada do que lhe diz respeito me passa pela cabeça. Sinto assim uma preocupação geral, sabes… assim como nos preocupamos com as crianças que passam fome em África. Está tudo muito longe…
– Porra… estás mesmo apanhado…
– Mas o meu docinho está ali para me fazer esquecer aquela parte da minha vida chata e sem cor. Ela dá-lhe o brilho que preciso com os seus carinhos, a sua compreensão, a sua voz maravilhosamente suave e o seu corpo, que é o mais sedutor do mundo.
– Tás doido companheiro! Não consegues ver um palmo à frente do nariz. Isso ainda vai acabar mal; cá p’ra mim esse é o cavalo errado…
– Ou acabar bem, quem sabe!… Eu fico nas nuvens, quando estou nos braços do cavalo errado.
– Eu espero que acabe bem, dê lá por onde der. Se precisares de conversar ou de algum apoio, conta comigo.
– És um bom amigo… obrigado companheiro! Vamos à última rodada?…
– À antepenúltima. A penúltima pagas tu e a última pago eu!

—//—

- Falaste com o parvalhão do teu amigo, fofinho?… Chegaste tão tarde…
– Enfrasquei-me… e ele não é parvalhão. Está apenas apanhado pela gaja. É só isso.
– Apenas?… Só isso? E a minha amiga? Podes imaginar o que ela vai sofrer quando souber?
– Ela não vai saber se nós não lhe dissermos.
– Não sei…ela já está desconfiada e custa-me tanto vê-la enganada…
– Acho que não nos devemos meter. Ela vai saber se e quando tiver que saber.
– Mas ela é minha amiga!
– E ele também…
– Mas é ele que anda a comer uma puta! Uma puta, amor.
– Não me digas que era diferente se ele andasse a comer uma colega.
– Pois, pois…
– Não me digas que era mais decente!
– Não era mais decente. Era menos preocupante. E ele é nosso amigo, certo? Onde é que esta gaja o pode levar, se essa porra evoluir? A ser despedido, por negligência e faltas injustificadas? A tornar-se alcoólico? Alienado? Brigão de bordel? Apreciador de telenovelas e fofocas entre o putedo? Desculpa… entre as acompanhantes de quinta categoria.
– Nós julgamos demais fofinha… repara: ele teve uma enorme necessidade de experimentar outro caminho, outra vida. Está um tanto cego com a novidade, mas ele que vai acordar mais depressa do que pensamos… é cá um palpite. Se calhar estava cansado da rotina…
– Queres ver que, agora, a culpa é da nossa amiga?…
– Não… não há culpas. Há circunstancias, gestos e atitudes que ambos não exploraram, ou exploraram mal. Seja por não se terem apercebido, seja por orgulho, estupidez, preguiça… Mas eles encontrarão uma solução. Estou certo disso. Anda cá, meu amor… quero abraçar-te.
– Hummm…

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2 thoughts on “A Aposta no Cavalo Errado

  1. mario de souza on said:

    maravilhoso, muito, mas muito lindo.

  2. Muito obrigada, Mário!

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